Bois da cara preta e outros seres de amedrontar*

É impressionante como situações inusitadas podem fazer a mente da gente libertar coisas há muito enterradas.
Hoje à tarde compareci ao chá de bêbe de uma amiga de faculdade, e um dos castigos consistia em que ela embalasse uma garrafa de refrigerante com um rostinho desenhado como se fosse o Fabrício (o bêbe dela que chegará dentro de algumas semanas), e a música escolhida foi boi da cara preta. E isso imediatamente me remeteu à minha infância quando eu, que não tinha nem cinco anos de idade, me agarrava no meu chero (travesseiro), me enfiava embaixo das cobertas e tremia de medo enquanto minha mãe cantava músicas para ninar da cultura popular brasileira.
Sim é verdade! Eu me “pelava” de medo do saci, da cuca e do boi da cara-preta, e não é para menos. Eu não sei em outras culturas, mas nossos seres mitológicos são de dar medo a valer. Dúvida? Então acompanhe comigo:

Boi da Cara Preta:
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega essa menina que tem medo de careta
Boi, boi, boi
Boi do Piauí
Pega essa menina que não gosta de dormir.
Viram? Imagina eu, com um metro de altura, sem entender muito do mundo imaginando um boi (sim eu já tinha visto um ao vivo com essa idade) com a cara toda preta, me olhando enfezado e bufando por que eu não conseguia dormir? Eu me enfiava embaixo das cobertas e não tinha cristo que me tirasse. Afe!

Marcha Soldado:
Marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso pro quartel O quartel pegou fogo Francisco deu sinal! Acode, acode, acode a bandeira nacional
Tadinho do soldado. Ficava imaginado o pobre soldadinho de chumbo (eu era uma criança não esqueçam) sendo preso porque errou um passo na hora de marchar. E além de tudo tinha que sair correndo para acudir a bandeira nacional que estava em vias de ser queimada.

Se essa rua fosse minha:
Se essa rua, se essa rua fosse minha,

Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Só pra ver, só pra ver meu bem passar
Nessa rua, nessa rua tem um bosque
Que se chama que se chama solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou que roubou meu coração
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
Tu roubaste, tu roubaste o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
Foi porque, só porque te quero bem.
Essa costumava me revoltar quando eu era maiorzinha e já participava do grupo de música da minha saudosa E.E.P.G. (Escola Estadual de Primeiro Grau). Meu coração ficava partido quando eu tinha de tocar o sino na parte do anjo que morava sozinho dentro do bosque e se chamava solidão antes mesmo de entender o significado dessa palavra. (Snif).

Pobre de Marre:
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré, marré, marré.
Eu sou pobre, pobre, pobre,
De marré de si.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré, marré, marré.
Eu sou rica, rica, rica,
De marré de si.
Alguém me explica o sentido de fazer uma música de ninar que enfatiza a pobreza? Eu ficava triste imaginando duas meninas: uma pobrezinha que cantava a primeira estrofe e a segunda bem rica zombando da primeira mostrando a boneca nova. Ó céus, ó dor, ó vida. Ó azar.

O Cravo e a Rosa
O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada;
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada.
O cravo ficou doente,
A rosa foi visitar;
O cravo teve um desmaio,
A rosa pôs-se a chorar.
Eu imaginava as duas flores quebrando o pau embaixo da sacada da janela de algum jardim e cada uma andando para o lado toda murcha. Mas como o Cravo tinha um bom coração, acabou ficando doente, pois não queria brigar com sua amiga Rosa e acabou ficando doente por causa disso. Mas a Rosa também não era má, e quando soube da doença do seu amigo Cravo foi vê-lo (só não levou flores, pois isso não faria sentido entre duas… er… flores?!) e o Cravo desmaia de alegria ao vê-la. Taí, essa é a única música que não me metia medo, pois mostra que grandes amizades não se abalam após brigas bobas.

Bom, um dia quando eu tiver meus filhos não posso garantir que não vou niná-los cantando essas músicas, afinal elas estão cravadas na minha mente até hoje, mas vou tentar variar o repertório e cantar outras coisas para não assustar meus bambinos.


Manhêeeeeeee, tira esse Boi daqui!!!!

*Texto originalmente publicado em 09 de Abril de 2006 às 20:32 e comentários dos amigos re-publicados logo abaixo.
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2 comentários sobre “Bois da cara preta e outros seres de amedrontar*

  1. Rey disse:

    Rê, querida!
    Não pensei que fosse sorrir tanto! Esta tua mente não tem com o que se preopcupar não, Rê?
    Amei!
    rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsr…….
    Amei! Que catarse tudo isso me provocou.

    Beijos! Mil beijos…

    Rey.
    10 de abril 15:45

  2. Carolzinha disse:

    Posso falar!!! Eu ouvia essas músicas e não me passava nada na cabeça… (não q eu fosse uma bobinha), mas não ligava a música ao fato!!! rssss
    Hoje porém vejo qto de maldade tem nas músicas de ninar… mas que pra nós, nunca causou trauma.
    Li uma reportagem (acho q na Veja) sobre essas músicas, que as escolas estão mudando parte da letra. Acho isso muito INVÁLIDO, pois está tirando a cultura que tivemos. Mais fácil seria escrever outras letras de músicas e pronto!!! Não afeta nem constrange nenhuma criancinha (se é q alguma irá ficar constrangida com elas)!!!
    Bjus

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