Cotidiano de Ana

O cheiro de café recém passado no coador de pano recendia no ar da casa toda, e o avental xadrez balançava de um lado para o outro com os passos agitados de Ana na cozinha. A faca com a qual cortava o pão das crianças escapuliu de suas mãos indo parar perto do pé da geladeira. Rapidamente, ao pegá-la riscou uma cruz no chão com a ponta da faca.
– Para não dar briga, falou baixinho como sua mãe havia lhe ensinado.
Enquanto os três filhos serviam-se na mesinha próxima da copa, ela rapidamente desceu as escadas que ligavam a casa na parte de cima à oficina do esposo, levando nas mãos a caneca de alumínio decorada com o time do coração da família, cheia do delicioso café que ela acabara de passar.
O portão azul da pequena oficina era bem de frente para a rua de paralelepípedos, e ao lado da entrada havia um corredor cheio de damas da noite e na calçada daquele sobrado de subúrbio um grande salgueiro chorão. Recebeu um beijo apaixonado do marido e antes de subir novamente lembrou-se de colocar as garrafas de vidro cheias de água em cima do relógio de luz.
– Esses meninos gastam muita luz por causa da demora no banho e do bendito Atari, sem falar que aquilo ainda me estraga a única TV que temos, justificava para as vizinhas.
Apressou os filhos e subiu a rua pisando em folhas amarelas que o vento de outono havia derrubado. Deixou os meninos no portão da escola soprando-lhes um beijo ao dobrar a esquina da floricultura. Desceu a rua em direção ao salão onde trabalhava desde mocinha como cabeleireira. Ao passar pela praça da cidade aspirou o cheiro das flores de Ipê Amarelo que começavam a brotar, com a proximidade do inverno. Enquanto atravessava a rua quase foi atropelada por um fusca azul marinho que vinha subindo a rua. Preparou-se para praguejar quando percebeu que era o seu vizinho Adaílton levando a mulher para o trabalho
– Desde que esse aí comprou essa bendita lata-velha passa o dia todo para cima e para baixo se exibindo, resmungou entre dentes.
– Bom dia vizinha! Desculpa o mau jeito.
– Bom dia! Vá com Deus, e para bem longe de mim pensou.
Um vento gelado balançou sua longa saia e ela apertou mais o casado de tricô que ganhara da comadre no ultimo aniversário. Esbaforida entrou no salão com o rosto corado por causa do vento
– Bom dia Lurdes!
– Bom dia Ana, que agitação é essa?
– Ai aqueles meninos ainda me botam louca! O Pedro me atormentou o caminho todo para que eu o deixe ir à matinê ver o novo filme dos trapalhões.
– Deixa menina, eles precisam se divertir.
– Hora, no meu tempo diversão era tomar picolé no coreto da pracinha.
Ligaram o rádio e enquanto começavam a arrumar o salão para mais um dia de trabalho, e começou o som de uma banda nova
– Esses tais de Titãs são bons não é?
– É sim menina, apesar de o som ser meio “pesado”.
– A sineta pendurada atrás da porta de entrada balançou e entrou a primeira cliente da manhã
– Ana minha flor, preciso que você me deixe maravilhosa! Tenho um casamento hoje à noite e preciso estar divina
– Mas claro! Você tem idéia do corte que vai quer?
– Hum, acho que pode ser igual ao da Viúva Porcina, aquela do Roque Santeiro sabe? Eu a acho muito elegante!
No fim do dia Ana voltava para casa, não sem antes conferir no armarinho do bairro as cores novas de linha para fazer seus panos de crochê que ajudavam complementar a renda, e também buscar o marido no boteco da esquina que outra vez tinha deixado as crianças em casa para jogar bilhar com os amigos e tomar uma “branquinha”.
– De novo bebendo Aderbal, anda pra casa “hômi” que ainda tenho que cozinhar o feijão “pra janta”.
– Já vou mulher, deixe só terminar mais essa partidinha com o Zé!
Enquanto subiam a rua, viram uma figura escondida atrás das cortinas da casa quase em frente.
– Ô “cumádi” escondida espiando a vida do povo de novo é?
– Imagina Ana, é que no friozinho gosto de ficar aqui perto da cortinas para aquecer.
– Cuidado que um dia alguém te pega por ser fuxiqueira hein?
O texto de hoje foi originalmente escrito para participar da Promoção Comemorativa de três anos do Garotas que Dizem NI, e está sendo publicado simultaneamente aqui e no Fórum do site. Lá os fãs que Dizem Ni também estão divulgando os textos que participaram da promoção, mas nãos foram ao ar, o que não signifique que não sejam bons, muito pelo contrário. São excelentes!
O Cotidiano de Ana foi escrito a quatro mãos e dois cérebros cheio de macaquinhos. A parte que você lembrar do subúrbio foi idéia minha, a que você der risada foi idéia dele: Douglas Rodrigues Lourenço, meu querido amigo que agüentou meus telefonemas e e-mails, pertubando sua paz, pedindo que me contasse histórias sobre seus vizinhos de bairro durante sua infância, então os personagens dessa história não são reais, mas são uma mescla de tudo que ele e eu vivemos durante nossas infâncias! Valeu mesmo querido!
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8 comentários sobre “Cotidiano de Ana

  1. Candia disse:

    AMEI AMEI AMEI!!!!!
    Atari, Fusca, Viuva Porina…
    Sem contar nas garrafas com água prá economizar energia!!!!!!!!

    Quando à faca…
    No Candomblé, dizem, que se vc riscar o chão é que traz discordia, vc chama osExus rá briga. Eu heim!!??

    Parabéns prá vc e pro Doug

    Beijocas amiga do “mal”
    =***

  2. Douglas Lourenço disse:

    e aí mina blz? entao, nao é q o texto ficou bom? principalmente quando esse tal de Douglas Lourenço escreveu as partes boas da historia…to brincando, ate pq fui eu q escrevi isso, alias so dei a ideia e vc transformou muito bem em um texto bacana…

  3. Bárbara Amelize disse:

    Sister… rsrs Só agora li o texto. Esta correria da minha semana foi foda. Perdão, viu?!

    Sem noção… o texto ficou show! O cabelo igual ao da dona Porcina porque era elegante me fez rachar de rir. A água também para economizar energia. rs Sem contar o atari… hahahahahahahahahaha Show demais.

    Eu só não sabia desse negócio da faca. rs Nunca tinha ouvido falar. rs E lendo o post da Fer aí em cima fiquei ainda mais curiosa para saber de onde isto vem.

    Parabéns aos dois. Douglas e você. Você tem incentivado todos os seus amigos a tomarem fanta uva e usarem “tóchico”, é?! hahahaha

    Beijos, flower!

  4. Bárbara Amelize disse:

    Hahahahahaha… Rê, você errou. O comentário tem mais de 10 linhas. Eu sabia que eu não tinha sido capaz de fazer uma coisa tão anormal dessa. hahahah E dá pra acreditar que vim aqui só pra conferir? hahahahaha

  5. Bárbara Amelize disse:

    Eu de novo… rsrsrs Só pra dizer… Ah tá… se é assim, sim! rs
    [mode chaves off]

    Beijos, amore!

  6. Carolzinha disse:

    Eu não deixei recadinho aqui?!?!? Não acredito!!!
    Ahhhh, é que eu deixei no Garotas!!! ;)
    Bjus

  7. Anonymous disse:

    Olá garota indômita!

    Eis-me aqui, humildemente reconhecendo que de todos os teus amigos, talvez seja eu, o mais ingrato dos ingratos.

    Mesmo assim, de posse da minha sinceridade habitual, direi que te adoro, apesar da demora.

    Baci, na testa.

    Rey.

  8. Change Mermaid disse:

    Texto show de bola, miga.
    Vocês todos do Fórum são super talentosos. Jornalista que sou, às vezes me sinto incapaz de escrever um texto assim, sabia?
    Parabéns e uma beijoca bem grande.
    Adorei seu comment no blog.
    Tb love u a lot!!!

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