Noite de inverno.

Contos

Era apenas mais uma noite fria de sexta – feira, mas o ar gelado parecia impregnado nas paredes e ela sentia-se extremamente melancólica. Chegou do trabalho e sentou no sofá; desde então duas horas haviam passado sem que tivesse ânimo para mais nada. Estava exausta de fazer comida para apenas um lugar na mesa e da solidão do apartamento.
– Preciso me animar – pensou. Levantou e foi em direção ao banheiro. Ligou o chuveiro e enquanto a fumaça de vapor subia, ela lentamente se livrava das roupas, num ritual quase mágico. Ao sentir o calor da água relaxando todos os músculos do seu corpo, sentiu-se melhor, porém a solidão ainda estava ali incrustada em suas veias. Terminou o banho foi para o quarto enrolada na toalha, o cabelo úmido moldando o rosto bonito.
Pedir comida de novo? Hum, acho que não. Estou enjoada de fast – food.
O vento frio que entrava pela janela fez ela lembrar de outras noites em que ele não a incomodava, pois o calor reinava no seu quarto, mas isso era passado e ela precisava esquecer. Observou a silhueta no espelho: não parecia mais a mesma, o olhos perderam o brilho e a pele estava mais pálida do que nunca.
Decidiu-se: Abriu o guarda roupa e tirou de dentro uma sala longa, uma blusa decotada, seu sobretudo, a bota de cano alto. Voltou ao banheiro e secou os cabelos, aplicou um leve batom nos lábios para disfarçar a palidez, vestiu-se pegou as chaves do carro e começou a guiar pela noite sem rumo certo. Passando por uma longa avenida do bairro vizinho, notou a agitação das boates e bares. Não, não era isso que ela queria. Passara da idade de envolver-se com garotos bobos e imaturos. Continuou guiando até lembra-se de um delicioso restaurante que ficava na rua de trás. Estacionou o carro na rua mesmo e adentrou.
– Mesa para quantos?
– Apenas para uma pessoa, grata.
O recepcionista ajudou-a a livra-se do sobretudo deixando à mostra o colo bonito, que emolduravam os seios bem feitos que se destacavam por baixo da blusa. Deixou-se conduzir para uma mesa ao fundo do restaurante, aonde haviam lindos arranjos florais e uma fonte Italiana.
Fez seu pedido e enquanto aguardava pensativa, sorvendo calmamente seu vinho, notou que era observada. Voltando à atenção para o mundo real, deparou-se com um grande par de olhos castanhos fitando-a. Ruborizou. Fazia tempo que não sentia-se assim, já que desde o fim de seu último relacionamento sentia que o brilho e o charme haviam fugido do seu corpo. O dono dos olhos castanhos não parava de olhar. Ele era alto, um rosto sério porém jovial, cabelos negros combinando perfeitamente com as sobrancelhas delineadas, barba semi cerrada. As mãos grandes seguravam uma taça de vinho também. Vestia um terno muito elegante e estava só.
– Deve ter saído do trabalho agora, quase como eu. Deve estar esperando pela companheira.
Seu prato chegou, e decidiu esquecer o homem mas os olhos não paravam de olhar. Ela levantou o rosto e lá estava ele, sorrindo agora. Tinha um sorriso perfeito e covinhas nas bochechas. Sentiu um calor agradável invadir o corpo
– Efeito do vinho, só pode – murmurou para si mesma.
Enquanto preparava-se para ir embora, o garçom entregou-lhe uma rosa vermelha com um cartão:
– Cortesia do senhor daquela mesa, senhora.
Ela sentiu o rosto queimar, acenou com a cabeça em sinal de agradecimento ao garçom e abriu o bilhete.
” Como pode uma rosa tão linda estar só numa noite como essa? Aceita minha companhia?”
– Que safado! Como pode ser assim tão cara – de – pau? Levantou voluntariosa, dirigiu-se à recepção do restaurante e quando ia saindo sentiu uma mão vigorosa segurar-lhe delicadamente o pulso.
– Por que tanta pressa moça bonita? Não está acostumada a receber elogios?
– Não de estranhos!
– Mas isso é apenas uma questão de minutos, deixe-me saber o seu nome, direi o meu, podemos sair para beber um pouco mais de vinho, pois notei que você gosta tanto quanto eu e nos conheceremos. Que tal?
Quis reagir mas não teve forças, os olhos dele pareciam hipnotizá-la e ela se deixou conduzir.
– Meu carro está estacionado logo ali – balbuciou meio em torpe.
– Então faremos assim, eu vou guiando na frente e você vem seguindo.
Não podia acreditar na loucura que estava cometendo, mas estava adorando. O coração disparado dentro do peito fazia ela respirar forte. Chegaram a um bar agradavelmente decorado, e sem muita badalação. Apenas alguns casais enamorados aqui e ali. Sentaram-se numa mesa ao canto e ele pediu um vinho.
– Ótima escolha
– Para tão linda companhia, não podia ser diferente
Beberam alegremente, sentia o corpo amolecer e ela sentia que tinha perdido o costume. Não soube como nem porque mas quando se deu conta estava beijando e abraçando aquele homem, a boca doce deixando-a zonza, as mãos fortes fazendo seu corpo voltar à vida. Lembrou-se vagamente de ter guiado o carro até o apartamento dele, dos corpos cheios de vontade atracando-se dentro do elevador, da pressa em abrir a porta, livrar-se das roupas, do movimento frenéticos dos corpos durante a madrugada, dos suspiros, beijos, palavras balbuciadas entre gemidos, do orgasmo intenso que tomou conta do seu corpo e do sono tranqüilo, como a muito não tinha.
Acordou em meio a lençóis perfumados, e sentiu o calor do toque daquelas mãos fortes em sua cintura, os olhos cerrados num sono profundo.
Levantou, vestiu a roupa, apanhou a bolsa e antes de sair do apartamento deixou um cartão com seu telefone sobre a mesinha da sala. Quem sabe não poderiam repetir aqueles momentos no futuro. Fechou a porta atrás de sí, e descobriu maravilhada que ainda estava viva.
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11 comentários sobre “Noite de inverno.

  1. Ana Martins disse:

    Um belo texto, Rê; uma noite e uma manhã perfeita!

    E ela que tinha chegado deprimida em casa na sexta, chegou renovada no sábado…

  2. Mestre Campestre disse:

    Uma narrativa adorável cara Renata.

    Não restam muitas palavras para classificar seu texto.Simplesmente ótimo.

    Baci zia Rê (zia=tia)

  3. Carolzinha disse:

    Rê, tirei de lá mesmo a idéia (Idéias Mutantes)!!! Ainda deixei a msg lá avisando que eles tinham me dado inspirações… rssss ;)
    Bjusssssss

  4. Muta disse:

    Uia!!!

    Empolgante é o mínimo que se pode dizer desse texto!

    Muito bom Renata.

    Baci

  5. *Renata Costa* disse:

    Que bom que voces todos gostaram e não acharam que minha mente tem macaquitos demais :P

    Baci amores

  6. Bárbara Amelize disse:

    Hum…. que belo conto! Narrativa leve, completa, perfeita. Já te disse que escreve lindamente, sister?! rs Umas quinhentas vezes, mais ou menos, né?! rsrsrs
    Descobrir-se vivo e capaz de sentir é uma sensação única. Ainda mais quando se pensa que não se é capaz mais. :D Eu já te disse isto várias vezes no msn… e nunca sei se a frase está correta. rs Porém, a verdade é: “Os opostos se distraem, os DISPOSTOS se atraem”. Permitir-se viver. Ver e ser visto. Trazer de volta o ar aos pulmões, encontrar beleza nas coisas simples. Corpo são, mente sã. rsrsrs

    Desculpa a demora desta sua hermana, tá?! Amo-te, honey!

    Baci

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