Mancebolândia

Quando eu tinha apenas 10 primaveras, eu ingressei na 5ª série do antigo Ginásio, e essa era uma fase de mudanças para todas as crianças da época, pois até então só havíamos tido uma professora que nós ensinava todas as matérias; nessa fase começamos a ter aulas com um professor ou professora para cada matéria, e com certeza uma das que mais marcou a minha vida e dos meus colegas e amigos de infância foi a de Geografia que atendia pelo singelo nome de Cleide Pinto. Mas, a singularidade dessa incrível professora não se limitava, obviamente, ao nome e ao amor pelo Mapa Geográfico/ Político do mundo. Dona Cleide era um amontoado de particularidades.
Para começar ela devia estar por volta dos 50 anos e era uma pessoa muito baixa, visto que nessa época eu não devia ter mais que 1,50m, e ela um pouco maior que eu.; era extremamente branca, com cabelos castanhos escuros e usava óculos com lentes “fundo – de – garrafa” que somados ao fato de que ela não podia erguer os braços, pois havia sofrido uma operação de ponte de safena, na qual colocaram ganchos por dentro da musculatura peitoral dela que a impediam de erguer os braços acima da linha dos ombros então ela passava a maior parte do tempo, com as mãos em repouso como o Sr. Burns dos Simpson., a deixavam ainda mais diminuta.
Segundo ela nos contava, o avó dela, que era Italiano, havia sido um dos fundadores do time de futebol Corinthians, e era um honrado cidadão Mooquense, e tanta paixão ela tinha pelo adorável bairro da Mooca, que fazia questão de chamar um dos meus amigos, o Rodrigo, de “Mancebo Mooquense”, já que ele morava lá na época. Aliás essa história do mancebo também é um clássico. Segundo ela, mancebos são os alunos dos grandes mestres, logo uma sala com cerca de 40 pestinhas, tentando aprender a arte de entender Mapas era a Mancebolândia. Impagável! Outra coisa que era hilária era o fato de ela ser extremamente nervosa (como todo bom descendente de Italiano claro), mas o melhor era a forma dela expressar isso:
Se vocês não ficarem quietos vou ser obrigada a começar a tirar os alunos para fora da sala de aula, pela janela, e sem quebrar os vidros (!).Imagina a cara dos alunos?!
E sobre a opinião dela sobre o domínio “Ianque” sobre os Brasileiros?!
– Calma crianças, que o Brasil era nosso até 1.500!
– A capital do Brasil é Brasilia e Washington.
E se vocês aí estão achando isso absurdo, deviam tentar responder algo diferente na prova. Na hora de responder tínhamos de colocar as duas cidades como capital da nossa pátria amada, idolatrada, salve – salve , ou era Zero, ou melhor “E”, que naquela época as notas eram por letras. Outro tormento eram os malditos mapas que ela nos fazia completar e colorir. Era proibido colocar o nome dos oceanos, pois segundo ela, não havia uma bóia para sustentar os nomes ali no meio, e tínhamos de fazer legenda de tudo, ou então… era “E”. Para quem conseguia alcançar a nota máxima, ela sempre prometia um livro de presente e até hoje ela deve estar devendo uns cinco para meu amigo Rafael. Alias conversando com ele no último sábado chegamos à conclusão que eram os lindos olhos verdes dele que chamavam à atenção dela. Sério! Ela tinha uma queda por “mancebos” de olhos claros e cabelos castanhos, tanto que era “apaixonada” pelo irmão mais velho da Isabela, que também estudava na mesma escola, e o chamava de Alain Delon, pois era muito parecido com o grande (e lindíssimo) ator.
Outra coisa inesquecível das aulas dela, é que ela fazia chamada oral de Estado/Capital e País/Capital, mas se você acha que era algo do tipo: – Qual a capital do Acre?, está enganado, normalmente era mais: – Qual Estado tem por capital Palmas, e qual país que tem por capital Quito?. Pelo menos nas chamadas orais eu nunca me saí mal, diferentemente dos mapas, que sempre vinham com aquela notificação que o nome do Oceano Atlântico não podia ficar boiando em meio à imensidão azul.
E por fim, a última grande história que me lembrei, graças ao meu amigo Douglas, que descobri tinha ressentimento de mim até “hoje”, foi que em um dos anos em que tivemos aula com ela, certo dia, enquanto ela explicava uma matéria para a sala toda, todos estavam atacados e não paravam de falar, com exceção da Carolina e eu, que sentávamos “na parede”, na primeira e segunda carteiras junto da porta e éramos muito tímidas, logo não abríamos a boca para nada. Em mais um momento de ira Italiana, Cleide mandou a sala toda (menos a Carol e eu) copiar vários capítulos do livro à mão para entregar. O Douglas que era muito terrível começou a árdua lição, primeiro copiando página à pagina, depois página sim, página não, depois parágrafo de página sim, parágrafo de página não, topo de página sim, três páginas não. No dia da entrega ela chamou um a um para conferir a lição, e para azar dele, ela começou a prestar muita atenção à copia dele, com aquela coisa de acompanhar o que estava escrito com a ponta do dedo, e num rompente de raiva:
– Já para a Diretoria.
Bons tempos que não voltam! E para minha alegria, descobri pela comunidade da Escola no Orkut que a Cleide continua dando aula, ainda mora no mesmo bairro, e é professora de um dos sobrinhos de um dos meus colegas dessa época. Grande Cleide. Saudades de professoras como você que amam sua profissão mais que tudo.



– Mancebolândia, qual a capital do Brasil?
– Brasília e Washington Professora!

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14 comentários sobre “Mancebolândia

  1. Bárbara Amelize disse:

    Haahahaha.. Mancebolandia? E a capital do Brasil Brasília e Whashinton? Que figura esta professora! Acabei de me lembrando de alguns que eu tive também. Do mesmo tipo… realmente, apaixonados pela arte de ensinar e com manias estranhas! Bons tempos. Mas, a professora que ficou gravada em minha memória era uma de português chamada Gerci. Séria demais. Mas, incrivelmente justa. Adorava a maneira de ser dela. :D

    Baci, hermana! Amo-te

  2. Ana Martins disse:

    huahuahauhauahua tou rindo muito aqui com a Mancebolândia… Muito figura sua professora, Rê!

    Fiquei muito feliz com seu elogio lá no meu blog! Valeu!

    Beijos.

  3. Augusto disse:

    Renata, fenomenal seu texto, e como eramos pestes…lembro do dia que a irritamos tanto que num ímpeto de legítima italiana ela movimentou indevidamente seus braços, além dos limites, e de tanta dor sentou no chão e encolhida chorou…e muito…eu era criança, mas acho que aquilo me marcou demais! Era mesmo excelente professora.
    ps: dias de agonia aqules em que, não tão malandro quanto o Douglas, copiei linha por linha do livro!
    Beijos

  4. Mestre Campestre disse:

    Hahahahah!Muito bom!
    Adorei a Dona Cleide e suas manias. Lembrei instantaneamente dos meus professores de Química e Geografia.
    São dois apaixonados por ensinar também. E claro tem suas manias adoráveis e não tão adoráveis assim. Inclusive, lendo teu texto reparei que é mania de professor de geografia dar resumo como castigo e/ou tarefa. Não conheci nenhum que não fizesse isso.
    O texto foi ótimo. :)

    Baci e abracci pra ti

  5. Lady Sith disse:

    A Dona Cleide devia ser mesmo uma figura. Ela deveria brigar com todas as empresas que confeccionam mapas. Todas elas colocam os nomes dos oceanos flutuando na imensidão azul…

    Ah, uma das coisas que me consola é saber que Sampa estará mais perto e eu poderei finalmente conhecer um monte de gente legal ;). Beijos.

  6. Luciana Teixeira disse:

    Re,

    Parabéns pela cronica, ficou muito boa mesmo, morri de rir ao lembrar de tudo isso, tb nunca esqueci dessa professora !!!
    Onde ela esta dando aula? No Levi?
    Bjss

  7. *Renata Costa* disse:

    Ahhhh, como é bom ser amparada pelas palavras do amigos que viveram a mesma época! :D

    Augusto, Rafa, Rê e Lú……obrigada pela visita e comentários viu. E a quem nãp conheçou a Dona Cleide também….fico feliz que tenham se divertido com o texto

  8. Léia disse:

    Oi Renata, Parabéns pelo texto, mas me admiro com o fato de vc lembrar de tanto detalhe… depois de ler lembrei, mas antes….acho que só dos mancebos de um país que tem duas capitais.
    Beijos

  9. Rodrigo disse:

    Bem legal mesmo!!

    Muitas saudades dessa época!!

    ra´rárá!!

    parabéns RÊ!!!

    Rodrigo(Mancebo Mooquense)

  10. nelson disse:

    Ao “jogar” o nome da professora Cleide Pinto no Google, cheguei aqui… tb fui seu aluno na 5 serie… Lembro-me das provas que nos aplicava, onde escrevia “C’est la vie” e “C’est fini”…Saudades!!!

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