Dentro de uma mente Maligna Parte II

Contos
Meu nome é Tommas, meu sobrenome há muito esqueci. Se você está lendo essa carta é porque finalmente foi cumprida minha sentença de pagar com a vida todos os erros que cometi ao longo de minha vida, os quais eu sinceramente sabia que não podia ter evitado. Você, cristão, puritano, provavelmente esta repugnando essas palavras, mas saiba você que dentro de toda mente humana há um lado obscuro que desperta ou não dependendo de suas escolhas, eu fiz a minha, você, as suas, mas isso não nos torna diferentes.

Para você entender o que levou a fazer tudo que fiz, tenho de te contar como tudo começou. Eu nasci no meio de uma família muito pobre, era o segundo de sete irmãos, dois meninos e cinco meninas. Minha mãe lavava roupa para fora para nos sustentar enquanto meu pai bebia o dia todo, e quando ela chegava em casa eles nos deixava trancados para o lado de fora da casa enquanto a espancava e abusava sexualmente. Minha mãe começou a ficar muito fraca devido a uma pneumonia que adquiriu lavando as roupas de madrugada depois que meu pai dormia e numa manhã cinzenta de inverno ela morreu. Eu temi pelo meu futuro e dos meus irmãos, mas o pior estava por vir. Meu pai cada vez mais bêbado passou a abusar sexualmente de nós, seus filhos e filhas. Duas das meninas, mais novas e sem comida não suportaram e morreram. Os vizinhos souberam disso, pois viram meu pai jogar os corpos delas dentro do rio fétido que passava atrás de nossa casa e o denunciaram a policia. Meu pai foi preso e meus irmãos e eu fomos levados para o orfanato. As três meninas foram rapidamente adotadas por uma senhora com muitas jóias que se apegou a beleza delas, já que todos nós tínhamos olhos azuis e cabelos loiros, mas ela não queria meninos. Eu nunca mais as vi.

Depois de um mês no orfanato fomos levados por um homem que construía casas e precisava de jovens aprendizes. Daria-nos comida, lar e uma profissão em troca de nossa ajuda. Parecia o inicio de uma nova fase feliz na nossa vida, porém no fim da primeira semana de trabalho acordei com os gritos de meu irmão e vi o homem que nos adotara violentando-o. Eu pulei em cima dele, mas eu era pequeno apesar de ter treze anos. Fui atirado contra a parede e acordei com o homem abusando de mim, e meu irmão desfalecido num canto. Eu achei que ele estava morto e aquilo aumentou meu ódio. Quando o desgraçado finalmente adormeceu, fui até a pequena cozinha da casa peguei uma faca, voltei ao quarto e a penetrei fundo no coração dele. O homem teve apenas tempo para abrir os olhos e levantar a mão, mas já era tarde. Ouvi então, para minha surpresa, meu irmão me chamando aterrorizado. Ajudei-o a juntar suas coisas e decidimos fugir, mas não poderia levá-lo comigo. Caminhamos até a estrada e depois disso caminhamos em sentidos opostos, sem olhar para trás. E nunca mais o vi.

O tempo foi passando e eu aprendi a trabalhar e me defender. Ajudava arduamente os comerciantes das cidades por onde passava em troca de alimento e abrigo, e logo cresci e tornei um rapaz muito atraente e não podia deixar de notar os olhares das mulheres sobre meu corpo enquanto trabalhava, e então conheci a mulher de um fazendeiro das proximidades. Ela era linda, olhos verdes ardentes, cabelos cor de fogo, e uma boca cheia de volúpia, que sussurrava que queria ser minha, mas eu tinha medo, pois às lembranças da infância vinham à tona sempre que ela me beijava. Numa noite enquanto dormia no fundo do armazém da pequena cidade senti um corpo quente sobre o meu, e ia me defender julgando ser algum ladrão, mas me deparei com os olhos verdes que tanto me provocavam. Ela começou a me ensinar a amar e logo eu estava em cima dela num ritmo frenético, quando coloquei minhas mãos em torno do seu pescoço e com aquilo senti mais e mais prazer. Ela estava visivelmente sufocando e eu continuava a apertar até que, ao atingir o clímax, quebrei o pescoço da minha ruiva. Aquilo me deu uma carga de satisfação e prazer que eu nunca tinha sentido, parecia que ao matar aquela mulher, eu matava meu pai e o novamente o homem que me havia adotado. Arrumei minhas coisas e sai pelo mundo sem rumo repetindo com várias mulheres o ato de sedução e morte.

Quando fiz vinte e sete anos resolvi deixar a costa norte do país e me dirigi ao sul. Logo cheguei numa pequena cidade chamada Samesville, e arrumei trabalho como ajudante de um homem chamado Joseph. Era um homem bom, honesto e que tinha Deus no coração. Enquanto trabalhei com ele parecia que eu tinha recuperado minha fé no Senhor. Um dia ele me convidou para trabalhar e viver em sua fazenda que era a dez minutos da cidade. Chegando lá não pude deixar de me deslumbrar com sua esposa Emilly, que era jovem, cheia de vida, curvas perfeitas, boca vermelha e carnuda olhos muito negros combinando com as tranças que lhe caiam pelas costas, mas resolvi não provocar, pois era uma mulher apaixonada pelo marido, extremamente religiosa e uma excelente mãe, além do mais eu havia decidido deixar a minha vida de pecados para trás, junto com a última mulher que eu violentara e matara usando uma cinta. Eu trabalhava arduamente, foi quando comecei a notar a filha dos meus novos patrões. Sarah era uma garota de quatorze anos, cabelos ruivos soltos caindo lindamente pelo rosto, olhos azuis como os do pai, muito esperta e agitada. Muitas vezes enquanto eu estava sentado no feno descansando ela vinha e se sentava no meu colo, e o calor daquele corpo pequeno reascendeu meus instintos, eu a empurrava levemente, mas ela voltava me abraçava, me beijava no rosto e falava que eu era o melhor tio do mundo.

Num fim de tarde, às vésperas do Outono, enquanto eu guardava as ferramentas, Joseph me chamou para comer pão de milho, mas eu queria ir me lavar antes. Fui até o pequeno lago, tirei a roupa e mergulhei. Quando voltei à tona, Sarah estava de pé ao lado das minhas roupas sorrindo, quando pedi que se virasse ela disse que não podia, pois me amava e queria que eu amasse também. Então eu me vesti e a levei até dentro da pequena mata que ficava nas redondezas, lá estendi minha camisa no chão, ela se deitou e eu comecei a amar. Soltei a fita que pendia os cabelos vermelhos e então na minha mente veio a primeira mulher da minha vida, e quando eu vi, Sarah estava inerte, pálida e sem vida sob meu corpo, enquanto o laço de fita estava preso ao pescoço branco. Desesperei-me e resolvi pegar o corpo dela e levar para longe da fazenda dos seus pais. Após deixá-la na beira de um outro lago voltei para a costa norte, e lá fui peso, pois as netas de uma outra mulher que havia matado me reconheceram e denunciaram. Mas, isso foi a melhor coisa que me aconteceu. Agora pagarei com a vida por ter privado tantas mulheres de suas vidas. E você que ama e respeita suas mulheres, filhos, filhas e irmãs, tenha esse relato na cabeça. O inimigo pode estar ao lado.

Esse conto é uma obra de ficção não baseado em fatos reais e complementa a primeira parte dessa história.

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8 comentários sobre “Dentro de uma mente Maligna Parte II

  1. Ana Martins disse:

    Rê do céu.
    Você tem talento. Está escrevendo cada dia melhor.

    Quero ver até onde essa série da maligna vai.

  2. Lídia Chululú disse:

    Renata de Deus,
    arrepiei toda!
    Tem certeza que é ficção?
    Continue a escrever, por favor!

  3. Bárbara Amelize disse:

    Amore… seu talento para escrever contos é uma coisa incrível. Não há o que questionar. Envolve os leitores… tem uma facilidade sobrenatural em falar de coisas complexas. Falei isso com você no skype, mas repito.. o mundo tem um lado obscuro… e a questão é como lidar com ele. Acho que encontrou a maneira perfeita…escrevendo! Escreva sempre… mesmo que assunto não seja leve…

    Escrevendo lindamente como sempre!

    Amo-te

    So que eu fiquei com meda.. hahahahahahaha

  4. Rafa disse:

    Rê…
    Vou ser preguiçoso e comentarei os dois ótimos textos aqui.
    Concordo que o “inimigo” posso estar ao nosso lado, mas acredito em “intuição” e que de alguma forma sabemos que fulano ou beltrano “não presta”. Psicologicamente falando, acredito que os inconscientes se comunicam.
    Ótima semana.
    Parabéns pelos texto.
    Beijos

  5. Normal do Rócio disse:

    É algo pra se pensar mesmo… E se combater.

    Não podemos pré-julgar um ato desses sem antes conhecer o passado do criminoso. Digo, é um crime que merece ter punição, mas talvez haja tratamento também.

  6. Mestre Campestre disse:

    Não entendi o por quê da sua preocupação em escrever sobre esses temas mais pesados. Você escreve divinamente bem e retrata de maneira única qualquer assunto que queira.
    Foi envolvente a forma com que você teceu a narrativa, chocando mais e mais o leitor a cada parágrafo.
    Resumindo: foi um ótimo texto, desculpa o atraso do sobrinho, hã?

    Baci e abracci

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