Fim de Ano é?

Pois bem. Eu tentei de todas as formas, com todas minhas forças fugir do tema Fim de Ano, mas não teve jeito e cá estou falando do bennedeto.
Fim de ano, na minha modesta e mal humorada opinião é sempre igual, e claro que vai ter algum leitor esquentadinho aí do outro lado da tela discordado efusivamente. E, como sempre, venho aqui mostrar os fatos para não deixar dúvidas, do porque o Natal e o Ano novo são sempre iguais:

1) Festa de Amigo Secreto na empresa
Aquela menina ou aquele cara mais animado do seu departamento resolve “agitar” o amigo secreto, corta os papeis com os nomes de todos, e depois tem que fazer tudo de novo porque alguém teve o nome incluso sem pedir. Todos colocam numa lista circular o que desejam ganhar e a troca de presentes rola numa confraternização na pizzaria/ rodízio de carne/ churrasco na casa de alguém. Agora, que graça tem um amigo secreto, em que todo mundo já sabe o que vai ganhar?

2) Confraternização promovida pela empresa
Como forma de gratidão pelos esforços de seus colaboradores durante o último ano a empresa promove uma festa em uma boate badalada/ sitio ensolarado para agradecer a colaboração de todos. Normalmente o esquema de funcionamento é open bar e buffet livre. Tem sempre algum engraçadinho que vai beber além dos limites, dar vexame, vomitar na frente do vice presidente, além claro daquele chefe mais saidinho puxando todas as estagiárias para dançar funk na pista. E claro, aquela pessoa que está sempre com um copo na mão, totalmente sóbria, apenas embebedando os caros colegas de trabalho.

3) Bota fora promovido pelos colegas de departamento
Sentindo que a festa promovida pela empresa não foi suficiente, seus colegas de trabalho promovem um bota fora em um bar ou boate animada, nas imediações do trabalho. Você jurou que não iria desde que, no último ano, a menina do Recursos Humanos perdeu o dente postiço no seu Martini. Tomado por um leve surto de esquecimento você vai, e vê as meninas do administrativo pulando na pista como macacas com pulgas, os gerentes comerciais suados e bêbados dançando abraçados ao som de “Whisky a Go Go”, os estagiários cercados de copos de chope e os olhos pequeninos de tanto álcool na veia além claro da sua assistente pulando como um canguru fêmea no cio enquanto o decote dela começa a ficar visível para o garçom que está do outro lado da casa.

4) Ceia de Natal na casa da tia.
Você passou o dia inteiro correndo atrás dos últimos preparativos e presentes, ou passou o dia na cozinha preparando a ceia, pintando, cortando e fazendo escova no cabelo da sua mãe. Tudo o que você quer é uma noite sossegada com a sua família, e lá chegando tudo o que você encontra são crianças desesperadas de fome correndo como se o mundo fosse acabar, mães descabeladas de tanto gritar com os pequenos indomáveis, tios e primos bêbados dançando “Bonde do Forró 768”, aquele vizinho abusado da sua tia que ignora a aliança do tamanho de uma roda de caminhão no seu dedo e fica te paquerando enquanto seu namorado não chega, além claro da sandália nova que está apertando seus dedinhos. E quando o relógio marca meia noite ao invés de as pessoas lembrarem o verdadeiro motivo de lá estarem, apenas atacam a linda mesa em questão de segundos.

5) Confraternização de Reveilon
E depois de sobreviver a todos os despautérios, você se anima com a chegada do fim do ano, com a beleza dos fogos de artificio e resolve viajar para algum lugar bonito para curtir esse momento. Não antes claro de enfrentar quilômetros de transito nas estradas, horas de atrasos nos aeroportos, e congestionamento de pessoas na areia da praia. Tudo isso para receber o novo ano que começa de braços abertos.

E depois de tanta ranhentice é isso que eu desejo a você querido leitor, amada leitora. Que seu fim de ano seja repleto de todos esses pequenos fatos que nos ensinam muito e que o ano que chega seja repleto de oportunidades de crescimento para você. Happy Holidays e até 2007.

Anúncios

Contra Ana*

Olhava fixamente para o aquário, onde pequenos peixes vermelhos nadavam de um lado para o outro, havia mais de meia hora. Apenas chegou da rua, sentou ali no sofá, abraçando as pernas, e não se moveu ou emitiu uma palavra desde então.
Os cabelos ruivos estavam molhados e em desalinho, resultado do temporal que desabava desde cedo. Os olhos, de um verde profundo, estavam fixos em algum ponto da água tingida do vermelho dos peixes e mal piscavam. Sua respiração de tão baixa, mal era perceptível, totalmente avessa ao ritmo do coração que de tão descompassado parecia querer saltar do peito.

Então, finalmente mexeu-se. Levantou e esticou os braços em direção do teto, respirou profundamente, e tentou livrar-se da sensação de fome que tomava conta do seu corpo. Olhou com ternura o porta retratos na mesinha de centro com a foto do namorado que não via desde o último feriado prolongado, quando se deu ao luxo de comer mais do que deveria. Ele insistia com ela que ela estava magra demais, e que gostava quando ela tinha mais “carninha” aqui e ali, mas ela sentia-se muito gorda, e tinha pesadelos todas as noites com isso. Via-se sendo retirada por uma parede quebrada no luxoso apartamento por inúmeros bombeiros que tinham dificuldade de mover seu obeso corpo, e ao acordar corria imediatamente para o banheiro e subia na balança para atestar para si mesma que não estava pesando mais do que julgava ideal
– 42 quilos, não está bom. Eu preciso emagrecer!
E olhava para o espelho novamente. No lugar onde antes brilhavam duas bochechas rosadas e saudáveis, agora estava a pálida sombra de um quase cadáver, que só ganhava cores durante as sessões de fotografia na agência de modelos da qual era contratada.

Dirigiu-se para a cozinha. Sua mãe estivera ali, e deixara além de um lindo vaso de rosas vermelhas, em comemoração à ascensão da filha um carinhoso cartão escrito a mão. Aproveitou-se também da sua ausência, já que passara as últimas semanas no circuito Milão – Paris – Nova Iorque, e abarrotou a despensa da casa com tudo que ela amava: pães, cereais, muitas frutas frescas, carne vermelha, algumas verduras e legumes, e biscoitos doces de todas as variedades, além do básico arroz e feijão. O estômago roncou denunciado o jejum de mais de 10 horas, e ela sentiu as pernas bambas.Resignada caminhou até a geladeira, pegou uma folha de alface, lavou-a na pia, e comeu junto com um copo de água do filtro. Tomou banho e foi deitar-se.
– Preciso emagrecer! Preciso emagrecer! – o mantra ecoava em sua mente durante o sono.

Na manhã do dia seguinte não teve forças para levantar. Seu corpo doía, e tudo ao seu redor girava. Distinguiu ao longe o som das chaves girando o trinco da porta, e vislumbrou o rosto querido do namorado, um pouco desconfigurado pela dor que a atingia. Ouviu muito longe a voz desesperada dele, enquanto levantava seu frágil corpo e a levava para o hospital. Os dias que sucederam eram um emaranhado de imagens confusas: enfermeiras entrando e saindo do quarto, a mãe e as irmãs mais novas chorando perto da cama em que estava, o namorado com quem tinha planos de casar no fim do próximo ano o tempo todo ao seu lado, segurando sua mão e sussurando palavras amorosas ao seu ouvido. Não sabia quanto tempo havia passado, até que um dia recobrou a consciência e então soube, que estava internada há mais de um mês, vitima de uma infecção generalizada que abatera seu frágil corpo. Os seus 1,75m não foram sustentados pelos 38kg do seu corpo e ela esteve a beira da morte, e muito perto de perder tudo o que amava.

Então, em um ato de coragem, abriu mão da carreira, do dinheiro e da fama. Retomou os estudos, investiu o que havia ganho e casou. Teve filhos, e ensinou a eles o respeito e amor que deviam ter com o corpo. E foi bastante feliz.

* Esse texto trata-se de uma ficção, e apesar de seus personagens não serem reais, o enredo é baseado em fatos reais. Nossa heroína, vítima da Anorexia, teve um final feliz e conseguiu sair a tempo do triste destino que levou as lindas meninas – modelos, durante as últimas semanas. Que o culto ao corpo magro e esquelético não seja maior que o respeito que devemos ter por nossa saúde e bem estar. Texto em memória dessas frágeis crianças vítimas da moda.