Contra Ana*

Olhava fixamente para o aquário, onde pequenos peixes vermelhos nadavam de um lado para o outro, havia mais de meia hora. Apenas chegou da rua, sentou ali no sofá, abraçando as pernas, e não se moveu ou emitiu uma palavra desde então.
Os cabelos ruivos estavam molhados e em desalinho, resultado do temporal que desabava desde cedo. Os olhos, de um verde profundo, estavam fixos em algum ponto da água tingida do vermelho dos peixes e mal piscavam. Sua respiração de tão baixa, mal era perceptível, totalmente avessa ao ritmo do coração que de tão descompassado parecia querer saltar do peito.

Então, finalmente mexeu-se. Levantou e esticou os braços em direção do teto, respirou profundamente, e tentou livrar-se da sensação de fome que tomava conta do seu corpo. Olhou com ternura o porta retratos na mesinha de centro com a foto do namorado que não via desde o último feriado prolongado, quando se deu ao luxo de comer mais do que deveria. Ele insistia com ela que ela estava magra demais, e que gostava quando ela tinha mais “carninha” aqui e ali, mas ela sentia-se muito gorda, e tinha pesadelos todas as noites com isso. Via-se sendo retirada por uma parede quebrada no luxoso apartamento por inúmeros bombeiros que tinham dificuldade de mover seu obeso corpo, e ao acordar corria imediatamente para o banheiro e subia na balança para atestar para si mesma que não estava pesando mais do que julgava ideal
– 42 quilos, não está bom. Eu preciso emagrecer!
E olhava para o espelho novamente. No lugar onde antes brilhavam duas bochechas rosadas e saudáveis, agora estava a pálida sombra de um quase cadáver, que só ganhava cores durante as sessões de fotografia na agência de modelos da qual era contratada.

Dirigiu-se para a cozinha. Sua mãe estivera ali, e deixara além de um lindo vaso de rosas vermelhas, em comemoração à ascensão da filha um carinhoso cartão escrito a mão. Aproveitou-se também da sua ausência, já que passara as últimas semanas no circuito Milão – Paris – Nova Iorque, e abarrotou a despensa da casa com tudo que ela amava: pães, cereais, muitas frutas frescas, carne vermelha, algumas verduras e legumes, e biscoitos doces de todas as variedades, além do básico arroz e feijão. O estômago roncou denunciado o jejum de mais de 10 horas, e ela sentiu as pernas bambas.Resignada caminhou até a geladeira, pegou uma folha de alface, lavou-a na pia, e comeu junto com um copo de água do filtro. Tomou banho e foi deitar-se.
– Preciso emagrecer! Preciso emagrecer! – o mantra ecoava em sua mente durante o sono.

Na manhã do dia seguinte não teve forças para levantar. Seu corpo doía, e tudo ao seu redor girava. Distinguiu ao longe o som das chaves girando o trinco da porta, e vislumbrou o rosto querido do namorado, um pouco desconfigurado pela dor que a atingia. Ouviu muito longe a voz desesperada dele, enquanto levantava seu frágil corpo e a levava para o hospital. Os dias que sucederam eram um emaranhado de imagens confusas: enfermeiras entrando e saindo do quarto, a mãe e as irmãs mais novas chorando perto da cama em que estava, o namorado com quem tinha planos de casar no fim do próximo ano o tempo todo ao seu lado, segurando sua mão e sussurando palavras amorosas ao seu ouvido. Não sabia quanto tempo havia passado, até que um dia recobrou a consciência e então soube, que estava internada há mais de um mês, vitima de uma infecção generalizada que abatera seu frágil corpo. Os seus 1,75m não foram sustentados pelos 38kg do seu corpo e ela esteve a beira da morte, e muito perto de perder tudo o que amava.

Então, em um ato de coragem, abriu mão da carreira, do dinheiro e da fama. Retomou os estudos, investiu o que havia ganho e casou. Teve filhos, e ensinou a eles o respeito e amor que deviam ter com o corpo. E foi bastante feliz.

* Esse texto trata-se de uma ficção, e apesar de seus personagens não serem reais, o enredo é baseado em fatos reais. Nossa heroína, vítima da Anorexia, teve um final feliz e conseguiu sair a tempo do triste destino que levou as lindas meninas – modelos, durante as últimas semanas. Que o culto ao corpo magro e esquelético não seja maior que o respeito que devemos ter por nossa saúde e bem estar. Texto em memória dessas frágeis crianças vítimas da moda.

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7 comentários sobre “Contra Ana*

  1. Dark disse:

    Essa busca pela magreza ou por uma beleza incondicional, faz mal a todos os envolvidos, já passou da hora de as pessoas entenderem que se sentir bem consigo mesmo é o verdadeiro centro da beleza.

  2. Mestre Campestre disse:

    O Dark disse tudo.

    Essa maldita preocupação com “o que os outros pensam de mim” acaba se sobrepondo a própria auto-estima da pessoa e, consequentemente abala a saúde, tanto física quanto psicológica.

    Essa busca por uma beleza utópica deveria ser preocupação de artistas com suas obras, não de pessoas consigo mesmas.

    Belo texto Rê

    Baci

  3. Nana Flash disse:

    Pior que as pessoas estaum sempre falando nisso… nam vale a pena ser magra se for pra ficar doente, naum vale a pena esse esforço por tao pouco, é bobagem fazer isso. Ai voce se convence que eh assim, mas ana primeira loja que entra soh tem manequim até 40. Eh punk ser gordinho hj.
    Otimo texto, beiju p tu

  4. Lady Sith disse:

    Concordo plenamente com o Dark e com a Nana. Temos mesmo que entender que é importante nos sentirmos bem como somos, mas é difícil ficar feliz consigo mesma quando você não consegue entrar em nenhuma roupa das lojas do shopping. Ou quando você vai a uma endocrinologista e ela diz que você está gorda (quando se tem um IMC de 24 – considerado peso normal pela OMS). A maioria das pessoas passa por essas situações sem desenvolver o distúrbio, mas as meninas mais suscetíveis ou que possuem outros problemas acabam encontrado uma válvula de escape no controle obsessivo do peso.

  5. muta disse:

    ainda bem que ela escapou… apesar de desesperada, a descrição dela nas primeiras frases simplesmente me cativou.

    apaixonei-me por ana!

    mto bom re!!!

  6. Bárbara Amelize disse:

    Nossa. Fiquei triste depois de ler o texto, mesmo sabendo que Ana se recuperou. rs Acho que beleza está mais relacionada com o tipo de amor que nutrimos por nós mesmos. O corpo é o instrumento mais valioso e absolutamente nosso que temos. Cuidar dele é uma obrigação, mas entender que cuidado difere disso é uma necessidade. Não há como não concordar com Dark e Nana… o problema é que por mais que se fale sobre isso, o mundo ainda está centrado no culto da beleza que diz que mulheres bonitas tem no mínimo 1, 70 e pesam no máximo 50 quilos. =/

    Beijo, amore.

  7. Anonymous disse:

    Gente,fui fazer um trabalho hj na escola e me falaram deste site…
    Eu nao sou Ana..e nunca quero ser!
    Como muitoo,e to muito satistfeita com meu corpo!
    mais eu tava entrando nus sites aii do pro ana q fiquei chocada!!
    Como pode meninas bonitas se estragarem!!
    Gente como pode ter uma mentalidade tao pequena!!
    Q vontade de ajudar a todas mais eu nao posso…To muito triste em saber q acontece isso!!
    onde este m,undo vai parar!
    bjinhuS
    E so totalmente a favor do site,tao de parabens!Eu so nao vou colocar meu nome pq eu nao tenho blog!
    mais me chamo Cynthia!

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