Manteiga derretida, e com bons motivos

Apesar do tamanho todo, e da cara de punk que tenho, eu sou uma manteiga derretida. E choro, choro e choro desde os motivos sérios até os mais fúteis. Aliás, quando eu era pequena eu chorava tanto que minha mãe sempre falava que um dia a “fonte” de lágrimas ia secar. Mas, pelo jeito ela continua cheia e prestes a transbordar, principalmente quando vejo Extreme Makeover – Home Edition, da emissora americana ABC, transmitida aqui no Brasil pelo canal da Tv a cabo People + Arts.

Trata-se de um grupo de arquitetos, engenheiros e decoradores que tem um coração do tamanho de Saturno, e sob o comando de Ty Pennington ajudam a reconstruir ou reformar a casa e a vida de famílias que precisam demais. Em geral vão além contribuindo com a família com medicamentos, bolsas de estudo, oportunidades de trabalho, além de darem uma semana de férias numa viagem de sonhos para os membros da família, enquanto constroem a casa. Aliás, só o fato de construir a casa toda em semana já é algo notável.

Um dos episódios que mais me emociona é o da família de um rapaz que ficou paralítico após ser baleado e que era noivo. Além de reformar a casa da família e deixá-la em condições de ser habitada por um cadeirante, ainda fizeram uma casa de fundos para que pudesse morar com sua esposa. Ah, eles organizaram nesse episódio o casamento do rapaz com sua noiva no quintal da nova casa.
Em um outro episódio, uma família que morava numa fazenda antiga e estava passando por sérias dificuldades depois que o pai e esposo faleceu. Eles não apenas reformaram toda a fazenda, como coletaram doações de feno dos fazendeiros vizinhos para que a família tivesse o que vender antes da próxima safra, como também organizaram um show com um carismático cantor country (e olha que eu não sou chegada no estilo) para juntar fundos para a família. Mas, o que me arrancou lágrimas nesse episódio foi o fato de a família estar extremamente feliz e triste ao mesmo tempo, o filho mais velho – com cerca de onze anos – protegendo mãe e irmã, pois eles estavam ali e o pai não mais. E como detalhe da decoração da sala da casa colocaram as botas de trabalho do pai nos pés da lareira, como se ele ali estivesse compartilhando tudo com sua família.

Um dos mais tocantes e que me arranca lágrimas toda vez que vejo, foi o de uma garotinha com cerca de sete anos de idade que não pediu a reforma para sua casa, e sim para o hospital onde havia sido tratada de câncer. Ela sabia que as crianças do hospital sentiam-se muito tristes e inseguras no ambiente hospitalar então, toda a ala infantil foi reformada e decorada com os personagem da Dysney. A carinha de emoção das crianças quando conhecem seus novos quartos é uma das coisas mais emocionantes que eu já vi. E enquanto a pequena garota e a família estavam no hospital ajudando na reforma, a casa da família também foi reformada em segredo e ela ganhou um lindo quarto que lembrava um jardim, pois apesar da pouca idade um dos maiores medos que ela tinha era o de ficar doente novamente e nunca mais poder sair para ver as flores. É ou não é de chorar que nem uma desesperada?

Eu assisto sempre que posso com o Dener me olhando com aquela cara de “mas é uma manteiga derretida mesmo” e recomendo, afinal chorar faz bem para os olhos, principalmente quando é de alegria por saber que tem gente com um coração de ouro com a equipe do Extreme Makeover Home Edition.

Eles valem ouro e transformam meu coração em manteiga derretida

X- Mas Time!

É uma coisa estranha de se dizer, mas desde muito cedo eu sempre considerei o Natal uma das épocas mais tristes de todas.

Não sei se pelas inúmeras desavenças e falsidades que sempre acompanhei bem de perto na minha família e sempre foram maquiadas pelas luzinhas natalinas e pelo peru com farofa doce, ou pelo excesso de hipocrisia das pessoas do meio corporativo durante as chamadas “festas de confraternização” no fim do ano, como eu já contei aqui.

Pode ser também porque me sinto mal ao ver os comerciantes cobrando um absurdo por um panetone, enquanto muitas pessoas passam fome. Claro, que há pessoas de atitude e bom coração que se esforçam para minimizar a fome essas pessoas, e levar um sorriso ao rosto de crianças cujas famílias não tem condições de comprar brinquedos como fazem os Correios e muitas outras pessoas e instituições.

Entretanto, às vezes eu penso se não sou eu que sou uma velha ranzinza presa no corpo de uma pessoa jovem.

Portanto, esse ano eu vou tentar ser um pouco menos ranzinza, velha, chata e tentar ser mais tolerante (apresar de não ter ido na festa da empresa e nem participado do amigo secreto).

E quero desejar a todos vocês meus melhores votos de que o Natal de você seja animado, repleto de amigos e de pessoas que os amam, lhes dando força, assim como nesse vídeo do Snoopy e dos Peanuts.

Mary X-Mas Folks!!!

Desejos

Estava sentada naquela poltrona havia cerca de duas horas, um cálice de vinho esquecido sobre a mesa de canto, e música clássica tocando repetidamente no aparelho de som, quase inaudível.

Mas, nem o vinho, nem o som lhe tiravam dos pensamentos. Desde aquela quente noite de verão, algumas semanas atrás, quando estava molhando as azáleas de sua janela, em que se deparou com aquela figura na janela do prédio ao lado.

Aquele apartamento estivera vazio durante muitos anos, desde que sua antiga proprietária, uma senhora já de idade, e que como ela gostava de cultivar flores na janela, havia ido embora. Não sabia se havia se mudado, ou falecido, mas o fato é que aquela cumplicidade silenciosa não a deixava se sentir tão solitária. Porém agora, depois de tanto tempo o apartamento tinha um novo morador. E os cabelos negros caindo sobre a testa, e a mania de perambular pela casa, sem camisa e com as janelas sempre abertas estavam mexendo com seus brios femininos a tanto adormecidos.

Agora, estava ali, de frente para a janela sentada repetindo o ritual das últimas noites, desde que o vira a primeira vez: chegava do trabalho, jogavas os sapatos em um canto, ligava o som com música clássica para tornar o ar mais ameno, servia-se de vinho, apagava a luz, e ficava ali bebericando no escuro até que via a luz do apartamento da frente acender-se e o seu novo objeto de desejo começar a caminhar de um lado para o outro enquanto tirava o paletó, a gravata, a camisa, exibindo o tórax, a barriguinha de cerveja (que tanto lhe agradava), a boca se movimentando ao som da música agitada.

Porém, essa noite algo estava errado. Ele estava demorando demais para chegar, o que, para sua surpresa a fez ficar nervosa. Levantou-se de súbito e começou a andar de um lado para o outro de seu apartamento, que agora parecia sufocá-la e o tempo parecia comprimir as paredes sobre ela. Não mais agüentando a pressão resolveu ascender a luz e abrir os vidros das janelas, e quase caiu de costas ao constatou que ele estava ali, na janela em frente, no escuro a observando também. Sentiu as pernas tremerem, o coração saltar e a boca ficar seca, e antes que pudesse articular uma única palavra ele lhe disse: vamos até lá embaixo para conversar melhor?

A surpresa foi tão grande que ela não sabia se calçava o sapato, pegava o elevador ou descia correndo as escadas. O fato é que quando chegou à portaria do prédio lá estava ele, parado, usando uma camiseta branca, calça jeans e chinelos. Ele lhe estendeu a mão e disse baixinho que também a observava em silêncio e tinha muita curiosidade de saber mais sobre aqueles olhos castanhos que agora estavam tão próximos dos dele. E tomou sua mão, e a conduziu ao apartamento que agora não tinha mais flores na janela, mas abrigava um dos mais lindos sorrisos que ela já vira.