Desejos

Estava sentada naquela poltrona havia cerca de duas horas, um cálice de vinho esquecido sobre a mesa de canto, e música clássica tocando repetidamente no aparelho de som, quase inaudível.

Mas, nem o vinho, nem o som lhe tiravam dos pensamentos. Desde aquela quente noite de verão, algumas semanas atrás, quando estava molhando as azáleas de sua janela, em que se deparou com aquela figura na janela do prédio ao lado.

Aquele apartamento estivera vazio durante muitos anos, desde que sua antiga proprietária, uma senhora já de idade, e que como ela gostava de cultivar flores na janela, havia ido embora. Não sabia se havia se mudado, ou falecido, mas o fato é que aquela cumplicidade silenciosa não a deixava se sentir tão solitária. Porém agora, depois de tanto tempo o apartamento tinha um novo morador. E os cabelos negros caindo sobre a testa, e a mania de perambular pela casa, sem camisa e com as janelas sempre abertas estavam mexendo com seus brios femininos a tanto adormecidos.

Agora, estava ali, de frente para a janela sentada repetindo o ritual das últimas noites, desde que o vira a primeira vez: chegava do trabalho, jogavas os sapatos em um canto, ligava o som com música clássica para tornar o ar mais ameno, servia-se de vinho, apagava a luz, e ficava ali bebericando no escuro até que via a luz do apartamento da frente acender-se e o seu novo objeto de desejo começar a caminhar de um lado para o outro enquanto tirava o paletó, a gravata, a camisa, exibindo o tórax, a barriguinha de cerveja (que tanto lhe agradava), a boca se movimentando ao som da música agitada.

Porém, essa noite algo estava errado. Ele estava demorando demais para chegar, o que, para sua surpresa a fez ficar nervosa. Levantou-se de súbito e começou a andar de um lado para o outro de seu apartamento, que agora parecia sufocá-la e o tempo parecia comprimir as paredes sobre ela. Não mais agüentando a pressão resolveu ascender a luz e abrir os vidros das janelas, e quase caiu de costas ao constatou que ele estava ali, na janela em frente, no escuro a observando também. Sentiu as pernas tremerem, o coração saltar e a boca ficar seca, e antes que pudesse articular uma única palavra ele lhe disse: vamos até lá embaixo para conversar melhor?

A surpresa foi tão grande que ela não sabia se calçava o sapato, pegava o elevador ou descia correndo as escadas. O fato é que quando chegou à portaria do prédio lá estava ele, parado, usando uma camiseta branca, calça jeans e chinelos. Ele lhe estendeu a mão e disse baixinho que também a observava em silêncio e tinha muita curiosidade de saber mais sobre aqueles olhos castanhos que agora estavam tão próximos dos dele. E tomou sua mão, e a conduziu ao apartamento que agora não tinha mais flores na janela, mas abrigava um dos mais lindos sorrisos que ela já vira.

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8 comentários sobre “Desejos

  1. Nana Flash disse:

    Hoje tava eu trocando de blusa e tinha um cara na janela da frente… em vez de pensar numa possibilidade dessas eu me joguei no chao p ele naum me ver nua. Aff eu naum tenho romantismo msm…
    Bjs!

  2. Klein - http://lixomania.zip.net disse:

    Ah, pára com isso. Eu fico com vontade de namorar lendo essas coisas.

  3. Dark disse:

    Muito bom, muito bom, excetuando os cabelos negro no rosto, e por causa da barriguinha de cerveja eu diria que conheço o moço e a moça que serviram de inspiração.hahahahaha

  4. Douglas Lourenço disse:

    ta vendo isso é o q se ganha por bisbilhotar a vida alheia….rss,
    muito bom o texto, como sempre.

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