Desejos

Estava sentada naquela poltrona havia cerca de duas horas, um cálice de vinho esquecido sobre a mesa de canto, e música clássica tocando repetidamente no aparelho de som, quase inaudível.

Mas, nem o vinho, nem o som lhe tiravam dos pensamentos. Desde aquela quente noite de verão, algumas semanas atrás, quando estava molhando as azáleas de sua janela, em que se deparou com aquela figura na janela do prédio ao lado.

Aquele apartamento estivera vazio durante muitos anos, desde que sua antiga proprietária, uma senhora já de idade, e que como ela gostava de cultivar flores na janela, havia ido embora. Não sabia se havia se mudado, ou falecido, mas o fato é que aquela cumplicidade silenciosa não a deixava se sentir tão solitária. Porém agora, depois de tanto tempo o apartamento tinha um novo morador. E os cabelos negros caindo sobre a testa, e a mania de perambular pela casa, sem camisa e com as janelas sempre abertas estavam mexendo com seus brios femininos a tanto adormecidos.

Agora, estava ali, de frente para a janela sentada repetindo o ritual das últimas noites, desde que o vira a primeira vez: chegava do trabalho, jogavas os sapatos em um canto, ligava o som com música clássica para tornar o ar mais ameno, servia-se de vinho, apagava a luz, e ficava ali bebericando no escuro até que via a luz do apartamento da frente acender-se e o seu novo objeto de desejo começar a caminhar de um lado para o outro enquanto tirava o paletó, a gravata, a camisa, exibindo o tórax, a barriguinha de cerveja (que tanto lhe agradava), a boca se movimentando ao som da música agitada.

Porém, essa noite algo estava errado. Ele estava demorando demais para chegar, o que, para sua surpresa a fez ficar nervosa. Levantou-se de súbito e começou a andar de um lado para o outro de seu apartamento, que agora parecia sufocá-la e o tempo parecia comprimir as paredes sobre ela. Não mais agüentando a pressão resolveu ascender a luz e abrir os vidros das janelas, e quase caiu de costas ao constatou que ele estava ali, na janela em frente, no escuro a observando também. Sentiu as pernas tremerem, o coração saltar e a boca ficar seca, e antes que pudesse articular uma única palavra ele lhe disse: vamos até lá embaixo para conversar melhor?

A surpresa foi tão grande que ela não sabia se calçava o sapato, pegava o elevador ou descia correndo as escadas. O fato é que quando chegou à portaria do prédio lá estava ele, parado, usando uma camiseta branca, calça jeans e chinelos. Ele lhe estendeu a mão e disse baixinho que também a observava em silêncio e tinha muita curiosidade de saber mais sobre aqueles olhos castanhos que agora estavam tão próximos dos dele. E tomou sua mão, e a conduziu ao apartamento que agora não tinha mais flores na janela, mas abrigava um dos mais lindos sorrisos que ela já vira.

Ah! O Amor…… *

Texto especial do dia dos namorados

[Olimpo, muitos e muitos anos antes de cristo]


Era mais um dia tranqüilo no Olimpo, morada dos Deuses Gregos, quando se ouve a voz de flauta doce de Afrodite cortar os céus:
– Maldição! Como pode?! Abusada!! Descarada!
Nesse momento chega voando seu filho Eros (entre os mais íntimos: Cupido):
– E aê mãe?! Que escândalo é esse?! Que é que tá pegando?
– Ah, meu filho que bom que você chegou. Minino, você não sabe da última! Sabe os humanos aqueles ingratos? Então! Deixaram de me cultuar diariamente como mandam os Oráculos! Agora passam os dias adorando uma reles mortal que atende pelo nome de Psiquê. Vê se eu posso com essas coisas?!
– Ih manhê! Relax! Você é uma Deusa com tudo em cima ainda. Nem parece que tem mais de oito séculos de vida. Tem carinha de dois só.
– Ah, lindinho da mamãe! Você fala isso só para me agradar. Mas, lembrei de uma coisa. Sua flechas tem o poder de fazer com que os tolos mortais se apaixonem uns pelos outros. Então, para fazer a sua mãezinha ainda mais feliz você vai voar até a Terra durante a noite e irá fazer com que essa “inha” se apaixone pela criatura mais desprezível do mundo.
-“Xá” comigo mãe.
E lá foi Eros carregando suas flechas encantadas cumprir os caprichos de sua mãe. Quando finalmente chegou ao palácio da princesa Psiquê (sim ela era filha de reis na Grécia), a encontrou dormindo, porém quando preparou-se para acertar-lhe uma flecha deslumbrou-se! Jamais tinha presenciado maior beleza entre deusas ou mortais. Num momento de distração acaba se arranhando com uma de suas próprias flechas e é contaminado pelo vírus do Amor.
– “Arriégua – pensou – E agora que eu faço?!
Mas, além de ser um verdadeiro deus grego – no sentido da beleza – Eros também era muito esperto, e chamou Zéfiro, deus dos ventos.
– E aê Zef me´irmão?! Tudo firmeza?!
– Tudo em cima! Que é que tu manda “fio”?
– Seguinte “véi” tô numa enrascada das grandes. Me apaixonei por uma garota mas minha mãe não pode descobrir senão me deserda, “sabecumê” matar ela não pode já que somos irmortais…. mas então: preciso tirar ela do mundo dos homens e levá-la para o castelo que ergui com o poder do meu amor. Você podia “quebrar” essa para mim “mano”?
-Opa “mano”! Amigos são “pra” isso.
Então Zéfiro com uma leve brisa carregou docemente o corpo de Psiquê para um perfumado campo de flores no mundo dos deuses. Quando despertou a jovem viu a sua frente um magnifico castelo e ouviu uma voz encantadora lhe convidando para entrar. Ela encontrou tudo para seu gosto delicado: as mais saborosas comidas, um banho maravilhoso, um quarto de dormir muito perfumado e uma voz ao longe lhe advertiu.
– Princesa Psiquê. Foste trazida aqui pela força do amor do seu futuro esposo que logo virá visitar-lhe. Mas tenho de fazer-te um alerta: Jamais poderá ver a face do teu amado.
Psiquê, claro, tremeu como vara verde, mas à noite em seu quarto, Eros chegou encoberto pelas sombras e tomou a jovem com tamanha doçura nos braços que ela esqueceu todo o medo e entregou-se aos carinhos e palavras ardentes de seus esposo, mesmo sem saber-lhe o nome ou o rosto.
Os dias iam passando e Psiquê era muito feliz, mas remoía saudades das irmãs que deixara no mundo dos homens. Eros, que tinha um coração bom, vendo sua tristeza permitiu que elas a visitassem um dia, mas a advertiu: vendo às irmãs reataria os laços terrenos que constituíam a base de todo sofrimento. E fê-la prometer novamente que jamais tentaria ver seu rosto em hipótese nenhuma. E foi com grande alegria que Psiquê recebeu as irmãs que, curiosas sobre a nova vida da irmã, enchiam-na de perguntas:
– Ai Psi! Seu castelo é um luxo!! Mas me fala, cadê o seu maridão?!
– Errr, aceita mais um chá de flores?
– Ai, para de bobagem, conta para a gente como ele é?! Deve ser um gato!´Nota-se pelo bom gosto que decorou o castelo e….
– Vou ali na cozinha preparar mais um pouco de cozido de bisão, alguém aceita?
Sentindo que a irmã dava apenas respostas evasivas sobre o marido a inveja brotou no maldoso coração das irmãs.
– Psiquê! Para de enrolar a gente. Aposto que seu marido é um feioso. Um monstrengo, e deve até te maltratar!
– Não falem assim dele!
Nisso Psiquê contou tudo. Que jamais vira o rosto do esposo, que ele a tinha proibido, etc. etc. Vendo que tinham plantado a desconfiança no coração da inocente Psiquê aconselharam que ela, durante a noite, tentasse ver o rosto do esposo com uma lâmpada e levasse uma faca afiada. Se ele fosse realmente um monstro deveria matá-lo. Então a noite fez exatamente o que as irmãs mandaram, porém quando levantou a lâmpada para ver melhor o rosto do esposo, que já dormia, deparou-se com o mais belo jovem que jamais tinha presenciado. Nisso distraiu-se e uma gota de óleo quente caiu no peito de Eros despertando-o. Percebendo o que tinha acontecido e muito magoado, fugiu de volta ao Olímpo, nisso o castelo que tinha construído desapareceu e Psiquê de repente viu-se só no escuro, num campo vazio no mundo dos homens. Vagou muitos dias e muitas noites com frio e fome em busca do amor perdido. Afrodite sabendo do acontecido teve outro “siricutico”:
– Ah, isso que dá você desobedecer sua mãe! Aí ó. Agora tá com esse machucado enorme no peito e ainda foi traído por aquela sirigaita! Achei que tinha mandado você dar um jeito nela! Mas não! Filho é tudo igual! A gente faz de tudo para criar, dá uma boa educação, carinho, estudo para quê? Para aprontar isso! Mas aquela lambisgóia me paga!
Afrodite então, traz Psiquê a sua presença e impõe a ela quatro tarefas (vejam bem quatro não doze) para que possa ver seu amado de novo. As tarefas iam desde separar grãos miúdos de diversas espécies até ir até o próprio inferno buscar uma encomenda com Perséfone, esposa de Hades. E Psiquê em nome do amor cumpriu todas as tarefas mas no fim da última resolveu abrir a caixa onde supostamente estava a chave da beleza eterna, pois tinha medo de ter se tornado feia depois de tantas provas. Dentro da caixa não tinha nada, mas um grande sono a acometeu.
Eros que despertara na mansão celestial da mãe, depois de curar-se do ferimento resolveu voar até sua amada, e depois de muitos dias encontrou-a dormindo ao relento. Depois de acordá-la com a ponta de uma de suas flechas e guardar de volta o sono que pesadamente segurava seus olhos, de forma muito meiga resolveu chamar-lhe a atenção para sua curiosidade
– E “aê pincesa” do meu coração, sua curiosidade só te trouxe sofrimento até agora. Mas agora vamos esquecer disso e falar de amor?
Então depois de fazer com que Psiquê entregasse a caixa à Afrodite sem contar-lhe do acontecido, Eros levou Psiquê ao Olímpo e pediu a Zeus que os unissem em casamento. Para isso era necessário que ela se tornasse imortal Zeus então presenteou Psiquê com um cálice de Ambrosia e os uniu em matrimônio.
E foi assim que Eros (o Amor) e Psiquê (a Alma) foram felizes para sempre. Ah, e da união dos dois nasceu uma linda deusa chamada Volúpia.

– Vamos Psiquê! Para o alto e avante……Er…..quer dizer. Vamo alí no Olímpo “Pincesa” vou ter dar meu amor imortal
– Ai, ai Eros! Você é tão romântico! Um verdadeiro Deus Grego

* Queridos leitores do Iéias em Fuga. Esse texto é uma republicção, mas diferente de quando foi escrito pela primeira vez, agora tenho meu Eros para chamar de meu amor e dar muitos beijos apaixonados.

E em nome desse amor, volto aqui em meio às minhas provas semestrais para presentear a vocês com esse texto que envolve uma das minhas maiores paixões, a mitologia grega, com diálogos insanos saidos das mente de uma pretensa escriba bem louca (eu).

Dedico esse texto a todos vocês que já encontraram sua alma gêmea. Cuidem muito bem de seu amor viu?! E dedico principalmente às amigas e aos amigos que ainda não encontraram. A estória de Eros e Psiquê só serve para mostrar que quando o Amor é verdadeiro, vale a pena lutar por ele, e que se não deu certo, é porque você ainda não achou sua metade.

E dedico ao Dener por tornar minha vida tão mais bela, feliz e brilhante. Te amo menino!

Desejo a todos um Dia dos Namorados com gosto de beijo apaixonado!

*Renata Costa*

Convenção de Heróis

Estamos aqui ao vivo na Convenção Anual de Super Heróis para entrevistar pessoalmente os seus heróis favoritos, caro leitor! E veja só ali, quem está se aproximando.
– Ei Huck, pode dar uma palavrinha aqui? O que você achou da adaptação para o cinema do seu filme?
– Huck, mata!
– Bem, mas e da série de bonecos especialmente confeccionados para o lançamento do filme?
– Huck esmaga!
– E sobre o futuro, tem planos para os fãs ansiosos?
– Huck, destrói!

Bom, parece que o Huck não está muito disposto a falar, mas vamos tentar outro. Ah sim!
– Capitão América, que honra encontrá-lo aqui! Você que é símbolo dos grandes heróis, tem algo a nos declarar nessa incrível convenção?
– Tenho sim! Antes eu tinha fãs, tinhas revistas, garotinhos usavam minha camiseta. Mas, depois que veio esse tal de Bush, todos passaram a detestar a América, sou motivo de chacota e… snif.

Enquanto a enfermeira oferece um copo de água para o América, vamos em busca de mais um Herói. Olha ali se não é o Flash! Oi, pode nos dar um… nossa ele já foi! Que velocidade! Ah, mas não tem problema, vamos ali!
– Demolidor o Homem sem Medo! Você que é o Herói Justiceiro, que não teme nada, tem algum medo secreto escondido na manga?
– O único medo que eu tenho é que façam uma continuação da adaptação da minha fabulosa história para o cinema. Eu nunca vi uma atuação tão apavorante como a do Ben Afleck! Sinto calafrios só de pensar nisso. E agora me dá licença que vou ali oferecer um drink para a Elektra.

Um pouco ranzinza esse cara.. opa, ta ao vivo né? (caham). E agora vamos ali falar com… opa! Quem deixou essa teia aqui no caminho do microfone?
– Fui eu! O Homem Aranha!
– Ora, ora! Vejam só se não é o Herói Aracnídeo! O que conta de novo Aranha?
– Ah, nada de novo querida repórter o de sempre! Salvando Nova Iorque dos meus inimigos, tentando tirar uma casquinha da Mary Jane, jogando pôquer com o Duende Verde e..
– Duende Verde? Ué, mas vocês não são arquiinimigos?
– Pois é, mas, é que eu to ficando velho, to ficando acabado, minhas teias não grudam mais, e eu preciso me alegrar. Afinal nada como um bom jogo de pôquer para fazer isso não é?!
– Ah sim, imagino, bom vou ali entrevistar o…
– Calma ai princesa, não quer dar uma volta na minha teia? Volta aqui!

Eu hein, cada herói doido! Ah, olha ali cercados por fãs ensandecidos: Batman e Robin!
– Dupla dinâmica! Uma palavrinha aqui para nossa reportagem?
– Ai mona, não vê que eu e o garoto prodígio estamos muito ocupados aqui?
– É baranga! Vasa, vasa, vasa para não desbotar minha base com essa sua feiúra!
– Er, mas nossos fãs estão ao vivo esperando uma palavrinha de vocês, ídolos e heróis de gerações!
– Ai fofa! Não cansa nossa beleza, sim?! Eu e Robin estamos nos preparando para uma viagem às ilhas gregas
– Sim. Vamos estudar a fun-do a mitologia grega! Ui, um luxo!

É queridos, parece que não estamos tendo muita sorte hoje. Mas, vamos continuar tentando, de repente ali na área dos heróis mutantes.
– A quem você está chamando de mutante mocinha?
– Ah! Wolverine! Puxa você me assustou!
– Ta, tudo bem, mas que papo de mutante é esse?
– Calma, amigo, calma! Recolha suas garras de Adamantium! Foi força de expressão, estava me referindo aos maravilhosos X-men.
– Que bom, não gostaria de me irritar com você, afinal você me lembra a Jean.
– Ah, que honra! Mas diga-nos Wolve! Quais as novidades para o próximo ano? Algum grande projeto “X”, algum novo… filme?
– Bom, não quero me gabar, mas há uma grande possibilidade do meu filme sair no próximo ano, e modéstia a parte ele está muito melhor que a trilogia X-men.
– Ah não diga! Que emocionante. Opa, peraí aquela não é a Mística?
(Flim)
– Droga! Perdemos mais uma câmera! Ela a fatiou feito queijo minas!

Mas, acalmem-se, estamos nos aproximando do fim da convenção, e não vamos daqui sem uma entrevista com ele, o homem, o mito, o herói! Super Homem!!!
– Cá estou!
– Ai! Vocês super-heróis podiam parar de me assustar, não? Soar um aviso sonoro antes de pousar na minha frente seria uma boa!
– Desculpe Louis, é a força do hábito.
– Meu nome não é Louis… bom isso não importa! Super – posso te chamar de Super? -nossos leitores, seus fãs, estão sedentos por suas palavras, o que tem a nos dizer?
– Comam seus legumes, façam seu dever de casa, escovem os dentes e não usem cueca por cima da calça… É muito chato.
– Como?
– Sabe como é Louis..
– Meu nome não é Louis.
– Ah sim. Pois bem, Louis! Essa coisa de usar cueca por cima da calça é algo que incomoda e pinica…
– Er… Super, nós temos crianças vendo…
-… e não fornece uma aerodinâmica adequada ao voar. Além de tudo, não combina nem um pouco com minha musculatura. Eu tenho praticado bastante academia sabe Louis?
– Eu já disse que meu nome não é Louis!
– Bom você sempre foi teimosa. Boa noite Louis! Para o alto e avante.

Ficamos por aqui queridos leitores, quem sabe na Super Convenção de Super Heróis do ano que vem temos mais sorte com os entrevistados. Obrigado pela paciência!
– Good Night Louis!
– Ah…, alguém tira esse cara daqui!

***************
Texto originalmente publicado para a promoção de fim de ano do site Garotas que Dizem Ni.

Contra Ana*

Olhava fixamente para o aquário, onde pequenos peixes vermelhos nadavam de um lado para o outro, havia mais de meia hora. Apenas chegou da rua, sentou ali no sofá, abraçando as pernas, e não se moveu ou emitiu uma palavra desde então.
Os cabelos ruivos estavam molhados e em desalinho, resultado do temporal que desabava desde cedo. Os olhos, de um verde profundo, estavam fixos em algum ponto da água tingida do vermelho dos peixes e mal piscavam. Sua respiração de tão baixa, mal era perceptível, totalmente avessa ao ritmo do coração que de tão descompassado parecia querer saltar do peito.

Então, finalmente mexeu-se. Levantou e esticou os braços em direção do teto, respirou profundamente, e tentou livrar-se da sensação de fome que tomava conta do seu corpo. Olhou com ternura o porta retratos na mesinha de centro com a foto do namorado que não via desde o último feriado prolongado, quando se deu ao luxo de comer mais do que deveria. Ele insistia com ela que ela estava magra demais, e que gostava quando ela tinha mais “carninha” aqui e ali, mas ela sentia-se muito gorda, e tinha pesadelos todas as noites com isso. Via-se sendo retirada por uma parede quebrada no luxoso apartamento por inúmeros bombeiros que tinham dificuldade de mover seu obeso corpo, e ao acordar corria imediatamente para o banheiro e subia na balança para atestar para si mesma que não estava pesando mais do que julgava ideal
– 42 quilos, não está bom. Eu preciso emagrecer!
E olhava para o espelho novamente. No lugar onde antes brilhavam duas bochechas rosadas e saudáveis, agora estava a pálida sombra de um quase cadáver, que só ganhava cores durante as sessões de fotografia na agência de modelos da qual era contratada.

Dirigiu-se para a cozinha. Sua mãe estivera ali, e deixara além de um lindo vaso de rosas vermelhas, em comemoração à ascensão da filha um carinhoso cartão escrito a mão. Aproveitou-se também da sua ausência, já que passara as últimas semanas no circuito Milão – Paris – Nova Iorque, e abarrotou a despensa da casa com tudo que ela amava: pães, cereais, muitas frutas frescas, carne vermelha, algumas verduras e legumes, e biscoitos doces de todas as variedades, além do básico arroz e feijão. O estômago roncou denunciado o jejum de mais de 10 horas, e ela sentiu as pernas bambas.Resignada caminhou até a geladeira, pegou uma folha de alface, lavou-a na pia, e comeu junto com um copo de água do filtro. Tomou banho e foi deitar-se.
– Preciso emagrecer! Preciso emagrecer! – o mantra ecoava em sua mente durante o sono.

Na manhã do dia seguinte não teve forças para levantar. Seu corpo doía, e tudo ao seu redor girava. Distinguiu ao longe o som das chaves girando o trinco da porta, e vislumbrou o rosto querido do namorado, um pouco desconfigurado pela dor que a atingia. Ouviu muito longe a voz desesperada dele, enquanto levantava seu frágil corpo e a levava para o hospital. Os dias que sucederam eram um emaranhado de imagens confusas: enfermeiras entrando e saindo do quarto, a mãe e as irmãs mais novas chorando perto da cama em que estava, o namorado com quem tinha planos de casar no fim do próximo ano o tempo todo ao seu lado, segurando sua mão e sussurando palavras amorosas ao seu ouvido. Não sabia quanto tempo havia passado, até que um dia recobrou a consciência e então soube, que estava internada há mais de um mês, vitima de uma infecção generalizada que abatera seu frágil corpo. Os seus 1,75m não foram sustentados pelos 38kg do seu corpo e ela esteve a beira da morte, e muito perto de perder tudo o que amava.

Então, em um ato de coragem, abriu mão da carreira, do dinheiro e da fama. Retomou os estudos, investiu o que havia ganho e casou. Teve filhos, e ensinou a eles o respeito e amor que deviam ter com o corpo. E foi bastante feliz.

* Esse texto trata-se de uma ficção, e apesar de seus personagens não serem reais, o enredo é baseado em fatos reais. Nossa heroína, vítima da Anorexia, teve um final feliz e conseguiu sair a tempo do triste destino que levou as lindas meninas – modelos, durante as últimas semanas. Que o culto ao corpo magro e esquelético não seja maior que o respeito que devemos ter por nossa saúde e bem estar. Texto em memória dessas frágeis crianças vítimas da moda.

Somewhere Ville (Parte 2 – Final)

Especial de Halloween

… e o que viram lá dentro os deixou totalmente estarrecidos: todos da cidade estavam ali, ao redor de grandes galões marcados com símbolos de material tóxico, dentro dos quais havia um líquido verde que emitia a luz fluorescente que viam ao longe. Amarrada pelos pulsos, no centro do celeiro havia uma garota que não devia ter mais de 10 anos, e parecia estar desacordada. Kate e Kris nunca a viram na cidade e desconfiaram que tratava-se de um seqüestro. O prefeito da cidade aproximou-se da garota, tirou-lhe as sandálias e com a ponta de uma grande faca, fez dois cortes nos calcanhares da menina, suficientes para acordá-la enquanto seus sangue rojava dentro de um grande balde posicionado logo abaixo dela. A garota gritava assustada, mas ninguém no circulo se moveu para socorre-la. Kris teve o ímpeto de invadir o local, mas Kate o segurou e sussurrou que podia ser muito perigoso e precisavam entender o que estava acontecendo.
Depois de longos minutos a garota silenciou e parecia que todo sangue havia saído do seu corpo. Então duas das professoras que davam aulas para Kate pegaram o balde cheio de sangue e o misturaram dentro de um dos grandes galões com as substância verde, e passaram a distribuir o conteúdo em copos para todos os presentes. Conforme iam bebendo a estranha mistura, eram tomados de uma grande euforia, dançavam, gritavam e depois caiam, como que drogados, pelo chão do celeiro. Por fim, alguns dos colegas de Kris desamarraram as garota do celeiro e a deitaram no feno. Abriram sua boca e derramaram um pouco da mistura do próprio sangue dela com a substância verde. O que Kris e Kate presenciaram depois disso fez o sangue deles gelar e o coração parecia ter parado de bater: A garota, que estava morta, depois de alguns segundos abriu os olhos e levantou-se normalmente. Em seu rosto já não havia mais a expressão de terror de minutos atrás, mas sim a mesma mórbida calma dos habitantes de Somewhere Ville.
– Deus do céu Kris! Eles são zumbis! Mortos vivos! Estamos numa cidade morta!
– Psit. Fale baixo, não queremos que nos vejam e…
Nesse momento, Kris foi agarrado violentamente pelo pescoço por um dos garotos com quem praticava futebol, e Kate desesperada apontou contra o rosto dele a lanterna de luz fluorescente que carregava para poder identificá-lo. O garoto então soltou Kris e levou as mãos ao rosto que começava a incendiar com a luz forte
– Isso Kate, continue apontando a lanterna para ele. Ele está queimando.
– Mas, alguém pode ver!
– Não pare, lá dentro todos parecem tomados por aquele estranho torpor.
E Kate continuou segurando a lanterna na direção do garoto, até que seu corpo se reduziu a cinzas. Enquanto Kate ainda tentava se recompor do susto, Kris agarrou seu braço violentamente e começou a correr de volta para casa. Precisavam sair dali antes que mais alguém os visse. Quando finalmente chegaram em casa o sol já estava começando a nascer, e correndo para o quarto dos pais, porém a casa estava vazia. Encontraram um bilhete dizendo:
“Crianças, fomos até Whitetown resolver alguns problemas. Voltamos a noite. Tem dinheiro na gaveta das camisas caso queriam comprar algo. Amor. Mamãe”
– E agora o que vamos fazer Kris?!
– Vamos ficar trancados aqui dentro de casa o dia todo. Não vamos sair para nada. Mas, uma coisa começa a ficar clara Kate. Se eles são sensíveis a uma simples lanterna de luz fluorescente, isso explica porque as ruas da cidade ficam vazias durante o dia, e todos se escondem em casa e nos prédios durante o dia. O sol pode acabar com eles! Então, enquanto o dia estiver claro estamos seguros. Só que temos que rezar para que papai e mamãe voltem antes de anoitecer.
O dia arrastou-se lentamente, Kris e Kate ficaram trancados no quarto dos país, armados com suas lanternas. O sol finalmente se pôs e o coração deles ficou mais apreensivo. Muitas horas passaram, então quando passava das duas da manhã o telefone tocou e Kate o agarrou:
– Alo Kate? Querida! É a mamãe. Papai e eu estamos aqui na casa do prefeito jogando baralho, e eles nos convidou para mostrar uma festa que realizam no celeiro da cidade. Logo mais estaremos ai sim. Não se preocupem.
Antes que pudesse articular uma única palavra, o telefone já estava mudo.
– Kris, eles vão levar mamãe e papai para o celeiro! Vão transformá-los em zumbis!
– Deus! Não podemos permitir que isso ocorra! Vamos, pegue seu casaco e sua lanterna e vamos para lá.
No caminho, perceberam que novamente toda cidade estava vazia e em silêncio. Todos deveriam estar novamente no celeiro
– Não entendo Kris. Antes, eles só faziam isso uma vez por mês. Por que pegaram nossos pais?
– Não sei Kate, mas vamos nos apressar. Ainda estamos na metade do caminho.
Como na noite anterior, deram a volta no celeiro e abaixaram-se atrás do mesmo. Lá ainda estava o corpo incendiado pela lanterna na noite anterior. Ninguém teria dado falta dele? Quando olharam pelas frestas das tábuas viram horrorizados que no centro do celeiro, onde no dia anterior estivera amarrada a garotinha, agora estavam seus pais. Acordados, eles foram amordaçados para conter seus gritos de horror.
– Kris, o que vamos fazer?
Mas, a resposta foi silêncio. Kris, havia ido para o outro lado do celeiro, onde estava uma grande quantidade de feno e com o auxilio do isqueiro que sempre carregava, começou um pequeno incêndio que logo tomou conta da parede oposta de onde estavam. Lá dentro, todos foram tirados do torpor do ritual e começaram a correr para apagar o incêndio, mas não podiam aproximar-se muito, pois suas peles mortas eram sensíveis também ao calor do fogo. Kris, então tomado de grande coragem entrou correndo no celeiro apontando a lanterna na direção de todos e foi para perto dos pais.
– Garoto! – vociferou o prefeito – nós iríamos pegá-lo depois par se juntar a nossa grande família, mas já que você fez questão de vir por conta própria seja bem vindo
– Afaste-se ou eu…
– Você o que? Não sei se você percebeu mas a luz da sua lanterna está ficando fraca e em mais alguns minutos você será nosso?
Kate continuava na parte de fora do celeiro, e estava cada vez mais aterrorizada, não sabia o que fazer. Então, levantou a cabeça e viu que no horizonte o sol começava a surgir. Lembrando-se das palavras do irmão mais cedo, resolveu entrar escondida no celeiro. Ela havia observado que a árvore, que estava no meio, e ao redor da qual o celeiro fora levantado era muito velha e parecia tomada por cupins, devido aos diversos furos na base do seu tronco. Se fizesse a coisa certa poderia derrubá-la. Entrou apontando sua lanterna que ainda estava com a luz forte em direção prefeito, e subiu no tronco da árvore.
– O que vai fazer Kate?! Eles vão nos matar!
– Não se eu puder fazer isso antes
E conforme balançava o corpo contra a árvore, um grande estalo indicou que ele suas raízes soltavam-se do chão. Os zumbis iam em sua direção, já que a luz de sua lanterna também estava se tornando fraca. Quando estavam quase com as mãos sobre ela, a árvore começou a despencar, rasgando o telhado do celeiro como se fosse uma fina folha de papel. O sol, que agora já estava alto, entrou gloriosamente pelo local, incendiando os habitantes de Somewhere Ville, enquanto o cheiro de carne morta tomava conta do local. Em poucos minutos, a cidade estava literalmente reduzida a cinzas. Kate e Kris desamarraram os pais, e correram para casa. Lá chegando pegaram apenas uns poucos pertences, e pegando o carro abandonaram para sempre Somewhere Ville. Voltando para sua cidade natal, e quando questionados sobre o motivo de terem voltado, afirmam apenas que não existe lugar como nosso lar.

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Se você chegou ao fim dessa grande celeuma de Halloween, ficam aqui os meus mais sinceros votos de que você tenha um dia das Bruxas repleto de muitos contos de terror, festa a fantasia, abóboras doces e travessuras. Aproveito também para desejar Feliz Aniversário para a melhor amiga que eu podia desejar no mundo: Gisele, sua ciumenta! Love you so much!
O Idéias em Fuga também entra em recesso! Devido às provas semestrais dessa pseudo escritora que aqui vos fala, o Idéias só volta à ativa depois de 20 de Novembro. Portanto, divirtam-se com os outros maravilhosos blogs aí da coluna à sua direita do monitor, e sejam bonzinhos, ou eu mandarei para suas casas uma das taças do fabuloso drink de Somewhere Ville. Hahahaha, Hahahaha, Hahahahahahaha [Modo risada macabra off]

Somewhere Ville (Parte 1)

Especial Halloween
A família de Kate mal pode conter a surpresa ao receber a correspondência naquela manhã chuvosa de outono. Um tio do pai de Kate havia falecido, e deixou para sua família toda sua fortuna, além de uma mansão gigantesca na cidade de Somewhere Ville, que ficava do outro lado do país.
Então, dentro de duas semanas sua vida mudou completamente: ela e seu irmão Kris deixaram para trás os amigos e amigas de infância, a escola, as aulas de natação, os passeios de skate no parque aos fins de semana com os amigos e rumaria para o desconhecido já que nunca tinha falado daquela cidade antes.
Depois de muitas horas de viagem, finalmente chegaram ao seu destino e encontraram a mansão numa rua central da pequena cidade, próxima a uma praça cheia de lindas árvores, uma escola que estava em silêncio e muitos pequenos comércios, todos fechados
– Deve ser por conta do horário. Já é tarde, – pensou Kate tentando afastar um calafrio que se acometera de seu corpo.
Mais tarde naquele mesmo dia enquanto auxiliava a mãe a guardar as roupas recém compradas no armário em seu quarto, ouviu alguém bater a porta. Correu para atender, e quando abriu a porta conteve-se para não gritar. Paradas em sua frente estavam duas garotas tão brancas quanto fantasmas
– Olá, somos suas vizinhas aqui do lado e viemos trazer esse bolo de boas vindas para vocês.
Kate, então sentiu-se extremamente desconcertada por ter ser assustado com tão gentis garotas. O tempo passava rápido e Kate logo foi conhecendo os costumes da cidade, porém cada vez ficava mais intrigada.
Durante o dia mal via as pessoas na ruas da cidade. No colégio, onde as crianças passavam o dia todo, ninguém saia ao pátio para brincar, jogar bola ou tomar sol como estava habituada a fazer em sua antiga cidade, e todos pareciam tomados daquela estranha palidez de suas simpáticas vizinhas.
À noite, entretanto, a vida da cidade fervilhava. Todos saiam, iam a bares, sorveterias, cinemas, inclusive as crianças. Kate não compreendia como depois de tanta algazarra durante boa parte da noite todas estavam bem cedo na escola no outro dia.
– Parecem zumbis que não dormem mãe!
– Oras, Kate! Não seja tola. Todas crianças dormem, mas talvez sintam menos sono que você.
Mas, a mãe de Kate também estava preocupada. Na prefeitura, onde estava trabalhando como voluntária, durante o dia grossas cortinas passavam o dia tornando o ambiente escuro, e a noite seus colegas, assim como os de Kate caiam na farra até o amanhecer. E quando ela chegava cedo, todos já estavam trabalhando.
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Numa noite muito fria, Kate acordou assustada depois de um pesadelo, no qual pessoas vestidas com capas negras a amarravam em uma cama de madeira, e cortavam o topo de sua cabeça com uma espécie de adaga. Ainda tremendo, desceu até a cozinha para tomar um copo de água, e quando abriu a cortina viu ao longe, no celeiro abandonado no alto da cidade tomado por uma luz verde e ao longe podia ouvir risadas e gritos quase alucinados. Quando ia abrir a janela para ouvir melhor, sentiu uma mão em seu ombro, e acabou soltando um grito de horror que foi acompanhando por seu grito que cortou como uma faca o silêncio da casa.
– Calma Kate! O que foi?
– Kris! Quer me matar do coração é?!
– Não! Eu só vim aqui tomar água, porque tive um pesadelo horrível e…
– Você também?
– É, mas deixa isso para lá. O que me preocupa é aquele luz verde ali. O que será que eles estão fazendo? Hoje a cidade está vazia, não ouve festa na praça.
– Melhor a gente não falar nada pro pai e pra mãe Kris. Vamos averiguar por nós mesmo.
*****
No dia seguinte na escola, todos os alunos e professores estavam ainda mais pálidos que o habitual, e pareciam todos muito cansados. Com o passar dos dias, a rotina da cidade voltou ao normal, mas Kate e Kris permaneceram atentos e notaram que todos os últimos dias de todos os meses o celeiro voltava a ser tomado pela luz verdes e vozes febris. Resolveram então naquela noite ir averiguar o que acontecia pessoalmente. Na calada da noite pegaram lanternas e capas e foram até o celeiro. Conforme iam passando pelos quintais das casas da cidade percebiam que todas estavam vazias. Lá chegando, abaixaram atrás no celeiro que fora construído ao redor de uma grande árvore e o que viram lá dentro os deixou totalmente estarrecidos…..

Continua

Rosa

Contos
As colinas verdes daquela pequena cidade na beira da montanha jamais tinha visto tamanha beleza em tantas e tantas gerações que cultivaram aquelas terras. Seu nome era Rosa, a irmã caçula de uma família com sete homens e que fora recebida com grande alegria pelo pai que ansiava muito por poder cuidar de uma menina depois de tantos meninos.
Rosa fazia jus ao seu nome, pois além de ser muito bonita e perfumada, era possuidora de um temperamento ferrenho tal como os espinhos da flor. Mas nem mesmo a personalidade afastava os homens de seu caminho. Sua pele branca como a neve que cobria o topo das montanhas, os olhos azul cor de céu, a boca carnuda e vermelha eram apenas pequenos itens decorativos quando comparados aos longos e sedosos cabelos ruivos que cascateavam pelas costas, os seios firmes e volumosos que descansavam sobre o colo bem feito. A cintura fina parecia não ter sido feita para o bumbum gracioso que rebolava sobre os vestidos leves que usava enquanto ia ajudar a mãe e os irmãos no trabalho da fazenda.
Tanta beleza despertava desejo e cobiça nos velhos fazendeiros da região, mas os pais de Rosa diferente dos outros da cidade não desejavam um casamento arranjado para a filha, e assim como os irmãos a defendiam com unhas e dentes.
Porém, quando Rosa completou dezoito anos, uma guerra entre seu país e o vizinho fez com que seus irmãos e seu pai fossem enviados à batalha da qual não retornaram com vida. Sem dinheiro para tocar em frente a fazenda, e com o país em ruínas, ela se mudou com sua mãe para a casa da tia que ficava em um outro país do outro lado do mar, num pequeno vilarejo litorâneo, onde a pesca garantia a sobrevivência de todos. Lá chegando, não demorou em despertar a atenção de homens que eram bem mais morenos pelo exaustivo trabalho no mar ou nas praias do lugar, bem como despertou a ira das mulheres que roíam – se de inveja de sua beleza. Foi trabalhar com sua tia junto de outras jovens que arrumavam as redes de pesca, porém o dinheiro era curto e ao receber uma proposta de casamento de um velho comerciante da região, não pode negá-la, pois sua mãe e sua tia estavam ficando velhas doentes e requerendo cada vez mais sua atenção e de remédios caros. A cerimonia foi cheia de toda pompa que o dinheiro do velho podia propor e na primeira noite de casada, Rosa foi deflorada com uma violência jamais imaginada. Desde desse dia tornou-se uma mulher fria e cheia de ódio. O tempo passava e o esposo de Rosa ficava impaciente, pois ela não engravidava e o único filho homem que ele havia tido estava longe cuidando da própria vida. Foi com Rosa a uma cidade maior para exames, e constatou frustrado que estava estéril e que nunca mais teria filhos. Desse dia em diante passou a estuprar Rosa com mais violência como se ela fosse culpada pelo fato de ele não pode fazer-lhe um filho.
Quando já estava cansada, armando um plano para fugir para longe com as jóias do esposo e levando a mãe e a tia antes que cometesse uma loucura e matasse o esposo, recebeu em casa, numa tarde chuvosa de verão a visita do seu enteado Carlo, que estava de férias. Era um homem um pouco mais velho que Rosa, alto, corpo bem definido, certamente pela prática de esportes, olhos negros e profundos, cabelos loiros, muito lisos caindo de forma graciosa pela testa, um queixo que lhe dava impressão de nobreza, mãos grandes e um peitoral muito bonito. Pela primeira vez na vida, Rosa sentiu-se envergonhada diante de um homem, pois sabia que os maus tratos a estavam deixando magra, cheia de olheiras e sem forças. Nada disso passou despercebido por Carlo, que assim que viu Rosa sentiu uma onda de calor brotando em seu corpo, concentrada na região das virilhas.
Alguns dias depois, Rosa estava dando ordens para a cozinheira quando desmaiou subitamente, ao que foi amparada pelas ágeis mãos de Carlo, que a levou para o quarto do pai, que estava viajando a negócios e a deitou delicadamente na cama. Não pode deixar de observar como o corpo de Rosa era bonito e atraente, apesar de toda palidez que ela apresentava. Não resistindo a seus próprios impulsos, trancou a porta do quarto e a janela e começou a acariciar o corpo da moça por cima do vestido azul, passando a mão por suas pernas, seus seios, sua barriga. Tomado pela lascívia tirou o vestido dela e começou a beijar suas coxas e acariciar o corpo de Rosa, que nesse momento soltou um suspiro recobrando a consciência. Quando se deu conta do que estava acontecendo começou a tentar fugir lembrando do horror das noites que vivia com o esposo, e nesse momento Carlo pode ver as marcas da violência e sentiu repugnância e raiva do pai, pois se lembrara de ter visto marcas semelhantes no corpo da mãe morta quando ainda era criança, e a encontrara no chão do quarto dias antes de ser enviado para estudar em outro país. Pegou Rosa delicadamente no colo e sussurrou em seus ouvidos:
– Criança, não tenha medo. Não sou como meu pai e a amo desde que a vi. Me permite te fazer feliz?
Rosa, de forma inexplicável sentiu-se segura nos braços de Carlo e envolveu os lábios dele com um beijo quente e apaixonado. Deitaram-se na cama e enquanto Rosa pela primeira vez sentia o prazer de entregar-se à volúpia com amor, Carlo se esforçava para satisfazê-la enquanto seu lado frio e vingativo preparava-se para acabar de uma vez por todas com as maldades do pai.
O esposo de Rosa passou mais de três meses viajando e todas as noites Carlo ia ter com ela em seu quarto e cada mais ambos tornavam-se lascivos e apaixonados, até que numa manhã Rosa começou a vomitar sem motivos e aparentava estar levemente inchada. Carlo exultou! Seria pai de um filho da mulher que tanto amava, mas isso fez com que tivesse de antecipar seus planos. Sabia que o pai voltaria de viagem naquela noite, precisava dar cabo da situação. Contratou assassinos profissionais para dar conta do serviço, mas à noite antes que pudesse abrir a porta para eles, recebeu uma notícia que abalou a todos da casa. Parecia que o digníssimo esposo de Rosa havia sido encontrado morto, no meio do mar com o pescoço enrolado numa rede de pesca muito parecida com a que Rosa e sua tia arrumavam anos atrás.